Vontade e Desejo
Vontade é pelo
Houaiss “faculdade que tem o ser humano de querer, de escolher, de livremente
praticar ou deixar de praticar certos atos”. Já desejo é “aspiração humana de
preencher um sentimento de falta ou incompletude”, e completa, “querer,
vontade”, mas dessa última parte vou discordar.
É que vontade é
pontual e não há objeto a que se destine, inicialmente; ela parte do indivíduo
PARA FORA, havendo ou não objeto. Pode ser vontade de rir, de ir ver um filme,
de molhar os pés no riacho, de falar do governo e tantas outras inumeráveis
vontades. Está bem na base da Vida toda e chamei Natureza/Deus, Ela/Ele, ELI,
de Vontade Majoritária, a Vontade maior. Em compensação o desejo é DESEJO DE
ALGO, requer necessariamente o objeto externo: deseja-se comprar um carro, ir
aos Lençóis Maranhenses, enviar os filhos a estudar na Europa.
Vontades não prendem
a nada, desejos sim.
Tanto que Buda falou
dos desejos, mas não das vontades. Pode-se viver com vontades, livre de
desejos, mas não se podem ter desejos sem ter vontade: o desejo é a vontade
ligada a objeto (pessoa ou coisa). Desejos amarram o ser humano na Roda das
Reencarnações, pelo Carma, a carga de crimes que fatalmente estão ligados a
eles. Vontade é apenas o dom de estar vivo.
Pelos desejos nos
ligamos até a milhares de objetos, e como não podemos tê-los, ou tê-los todos
ao mesmo tempo, sofremos. Portanto, deveríamos, como Buda disse, parar de ter
desejos (ou aprisionamentos) e treinar firmemente nossa vontade para nos
desvestirmos do mundo. Os que fumam deveriam ter força de vontade (vontade a
altura suficiente) de parar de desejar fumar. Falar é fácil, fazer é que são
elas. Entretanto, está posta a distinção.
Vitória, domingo, 14
de setembro de 2003.
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