quinta-feira, 16 de março de 2017


Vontade e Desejo

 

                            Vontade é pelo Houaiss “faculdade que tem o ser humano de querer, de escolher, de livremente praticar ou deixar de praticar certos atos”. Já desejo é “aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude”, e completa, “querer, vontade”, mas dessa última parte vou discordar.

                            É que vontade é pontual e não há objeto a que se destine, inicialmente; ela parte do indivíduo PARA FORA, havendo ou não objeto. Pode ser vontade de rir, de ir ver um filme, de molhar os pés no riacho, de falar do governo e tantas outras inumeráveis vontades. Está bem na base da Vida toda e chamei Natureza/Deus, Ela/Ele, ELI, de Vontade Majoritária, a Vontade maior. Em compensação o desejo é DESEJO DE ALGO, requer necessariamente o objeto externo: deseja-se comprar um carro, ir aos Lençóis Maranhenses, enviar os filhos a estudar na Europa.

                            Vontades não prendem a nada, desejos sim.

                            Tanto que Buda falou dos desejos, mas não das vontades. Pode-se viver com vontades, livre de desejos, mas não se podem ter desejos sem ter vontade: o desejo é a vontade ligada a objeto (pessoa ou coisa). Desejos amarram o ser humano na Roda das Reencarnações, pelo Carma, a carga de crimes que fatalmente estão ligados a eles. Vontade é apenas o dom de estar vivo.

                            Pelos desejos nos ligamos até a milhares de objetos, e como não podemos tê-los, ou tê-los todos ao mesmo tempo, sofremos. Portanto, deveríamos, como Buda disse, parar de ter desejos (ou aprisionamentos) e treinar firmemente nossa vontade para nos desvestirmos do mundo. Os que fumam deveriam ter força de vontade (vontade a altura suficiente) de parar de desejar fumar. Falar é fácil, fazer é que são elas. Entretanto, está posta a distinção.

                            Vitória, domingo, 14 de setembro de 2003.

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