O Pecado de Mersenne
No livro de John
Henry, A Revolução Científica (e as
origens da ciência moderna), Rio de Janeiro, JZE, 1998, p. 31, ele diz: “Pelo
menos dois famosos alunos dos jesuítas deram suas próprias e influentes
contribuições para a matematização da representação do mundo: Marin Mersenne
(1588-1648) e René Descartes. Marin Mersenne tornou-se frade da Ordem dos
Mínimos em 1611 e, com o incentivo de sua ordem, dedicou a vida ao trabalho
intelectual em apoio à sua fé. Mersenne foi levado por suas crenças religiosas
a negar o pressuposto fundamental do aristotelismo de que causas físicas podem
ser conhecidas com segurança. Isso equivalia a afirmar que a humanidade
era capaz de penetrar a essência de uma coisa e, portanto, era igual a Deus.
Mersenne, contudo, não era cético. Via a matemática como o tipo mais verdadeiro
de conhecimento, a única forma de conhecimento humano que podia aspirar a ser
igual ao conhecimento divino”, negrito e itálico meus.
Podemos imaginar que
apenas o Um pode dar o salto não-finito, postar-se na Tela Final, ver e
compreender todas as coisas e converter-se em Natureza, fechando o par polar
oposto/complementar como ouroboros. Os demais são os racionais, partidos, que
vêem somente porções. De fato, então, as causas físicas não podem ser
conhecidas com segurança, no sentido de na sua totalidade, como equação geral.
Aristóteles estava errado nisso e Mersenne certo. Não podem, mesmo.
Se o Conhecimento
(Magia-Arte, Teologia-Religião, Filosofia-Ideologia, Ciência-Técnica e Matemática)
tem como centro a Matemática é esta a própria mente de Deus. Mas a Matemática
não pode ser conhecida em sua totalidade, PORQUE isso seria equivalente a ser
de fato igual a Deus, ser Deus mesmo, o que é pretensão inominável, como a de
Satanás. Como não pode ter conhecimento físico completo, o racional também não
pode ter conhecimento matemático completo, pois a matemática-física é o que
está por trás da física. Pode ter conhecimento particular, incompleto. Pode ser
“igual” apenas no sentido de que um segmento de reta representa a reta, que é
não-finita; já o segmento de reta, sendo PARTE DA RETA, não é igual à reta,
apenas a representa. Assim, a matemática que o ser humano pode conhecer não é a
Matemática, todas as matemáticas – é apenas parte dela. Desse jeito é igual
apenas na parte, mas não no todo. Assim como todo racional é parte de Deus, mas
não é Deus, Deus é todos os racionais e mais. É a lógica. Assim sendo, Mersenne
evitou um erro e caiu em outro.
Vitória, sábado, 13
de setembro de 2003.
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