quarta-feira, 15 de março de 2017


O Pecado de Mersenne

 

                            No livro de John Henry, A Revolução Científica (e as origens da ciência moderna), Rio de Janeiro, JZE, 1998, p. 31, ele diz: “Pelo menos dois famosos alunos dos jesuítas deram suas próprias e influentes contribuições para a matematização da representação do mundo: Marin Mersenne (1588-1648) e René Descartes. Marin Mersenne tornou-se frade da Ordem dos Mínimos em 1611 e, com o incentivo de sua ordem, dedicou a vida ao trabalho intelectual em apoio à sua fé. Mersenne foi levado por suas crenças religiosas a negar o pressuposto fundamental do aristotelismo de que causas físicas podem ser conhecidas com segurança. Isso equivalia a afirmar que a humanidade era capaz de penetrar a essência de uma coisa e, portanto, era igual a Deus. Mersenne, contudo, não era cético. Via a matemática como o tipo mais verdadeiro de conhecimento, a única forma de conhecimento humano que podia aspirar a ser igual ao conhecimento divino”, negrito e itálico meus.

                            Podemos imaginar que apenas o Um pode dar o salto não-finito, postar-se na Tela Final, ver e compreender todas as coisas e converter-se em Natureza, fechando o par polar oposto/complementar como ouroboros. Os demais são os racionais, partidos, que vêem somente porções. De fato, então, as causas físicas não podem ser conhecidas com segurança, no sentido de na sua totalidade, como equação geral. Aristóteles estava errado nisso e Mersenne certo. Não podem, mesmo.

                            Se o Conhecimento (Magia-Arte, Teologia-Religião, Filosofia-Ideologia, Ciência-Técnica e Matemática) tem como centro a Matemática é esta a própria mente de Deus. Mas a Matemática não pode ser conhecida em sua totalidade, PORQUE isso seria equivalente a ser de fato igual a Deus, ser Deus mesmo, o que é pretensão inominável, como a de Satanás. Como não pode ter conhecimento físico completo, o racional também não pode ter conhecimento matemático completo, pois a matemática-física é o que está por trás da física. Pode ter conhecimento particular, incompleto. Pode ser “igual” apenas no sentido de que um segmento de reta representa a reta, que é não-finita; já o segmento de reta, sendo PARTE DA RETA, não é igual à reta, apenas a representa. Assim, a matemática que o ser humano pode conhecer não é a Matemática, todas as matemáticas – é apenas parte dela. Desse jeito é igual apenas na parte, mas não no todo. Assim como todo racional é parte de Deus, mas não é Deus, Deus é todos os racionais e mais. É a lógica. Assim sendo, Mersenne evitou um erro e caiu em outro.

                            Vitória, sábado, 13 de setembro de 2003.

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