quarta-feira, 15 de março de 2017


O Mês Seguinte

 

                            O Dia Seguinte (The Day After) foi um filme chocante de 1983, baseado no relatório real denominado Inverno Nuclear, de Carl Sagan e outros, segundo o qual mesmo uma troca moderada de mísseis nucleares levantaria um escudo que impediria a penetração dos raios solares e lançaria a Terra num inverso artificial que potencialmente acabaria com a Vida quase toda. Desviou o curso das discussões acadêmicas e provavelmente incrementou a queda da URSS. Mostrava a devastação o mais realisticamente possível e fez desmoronar completamente as ilusões dos armamentistas.

                            Depois fizeram vários filmes interessantes, inclusive um em que Moscou é atingida por mísseis, devido a um erro de comunicação, e em contrapartida, para não levar adiante uma guerra ainda mais devastadora, o Secretário de Estado da URSS exige e obtém retaliação de mesmo porte, ou seja, o bombardeio seletivo de nova Iorque, onde iria morrer número mais ou menos equivalente de americanos.

                            Filmaram o Outubro Vermelho, com Sean Connery, em que este como comandante de um submarino soviético vai até as costas americanas. Por pouco não houve um esquentamento em 1986. Agora estou assistindo o K-19, com Harrison Ford, que conta o incidente de 1961 (que só pôde vir a público 28 anos depois), quando o dito submarino vazou radiação e quase houve uma crise real. Sem falar da Crise dos Mísseis de Cuba, de 1962. Agora que estão vindo à tona os arquivos, multiplicam-se as notícias de que o mundo poderia ter ido para o brejo várias vezes de 1945 a 1991.

                            Penso aqui em uma troca efetiva de mísseis - abatendo todas as principais cidades - vista depois de um mês, de um ano, de uma década, de um século. Contando a geo-história dos sobreviventes da forma mais realística possível, com consulta aos pesquisadores (magos/artistas, teólogos/religiosos, filósofos/ideólogos, cientistas/técnicos e matemáticos), num filme-piloto e depois numa série, de tal modo que fique bem marcada a loucura em que estávamos mergulhados.

                            As pessoas deveriam ter chance de olhar a destruição fictícia de tudo que nos é grato (praias, obras de arte, bibliotecas, tudo mesmo), restando um tanto de humanos estropiados – mas sem recorrer àquela bobagem de mutantes e radiações esperando nas esquinas para bater nas criancinhas.

                            Vitória, sábado, 13 de setembro de 2003.

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