sexta-feira, 10 de março de 2017


O Olhar do Povo

 

                            Evidentemente quando LEMOS a mídia (TV, Revista, Jornal, Livro/Editoria, Rádio e Internet) o que vemos é sempre o olhar dos dominantes sobre os dominados, sua interpretação de como o mundo é, de como são as PESSOAS (indivíduos, famílias, grupos, empresas) e os AMBIENTES (municípios/cidades, estados, nações e mundo). É uma leitura de dentro para fora, nunca de fora para dentro. A burguesia e as elites nunca se vêem retratadas – e muito menos com cores desfavoráveis.

                            Mesmo quando dizem de um Jornal Popular ainda são os intelectuais, os sapos palradores e coaxadores que olham e julgam, como serviço de classe. Estou para ver, e seria muito interessante, um veículo mostrar realmente as classes dominantes (todas elas) DE FORA. Para isso é preciso DUPLO serviço de reflexão: a) REFLEXÃO RACIONAL e b) REFLEXÃO SENTIMENTAL.

                            Isso de reflexão quer dizer um espelho, algo que altera esquerda para direita, beleza para feiúra, liberdade para prisão, todos os pares polares de opostos/complementares, de modo que o médico veja dentro de si o monstro que criou e que, agora, cria-o também. INVERTER OS SIGNOS, digamos assim. Ora, isso não é fácil, porque há várias tentações.

                            AS TENTAÇÕES DOS ESCRIBAS

·        Frequentar os bufês da burguesia;

·        Sonhar com passeios em iates de 300 pés;

·        Imaginar-se nas colunas dos “perfeitos”;

·        Receber nas costas tapinhas de pertinência grupal;

·        Ser reconhecido na multidão como um aderente útil ao projeto geral da classe dominante;

·        Ir aos restaurantes da moda;

·        Listar as alturas visitadas no panteão dos semideuses semi-olímpicos, provinciais que sejam;

·        Esforçar-se por ostentar os brilhos das camuflagens mais aplaudidas na moda da estação, e assim por diante.

É muito difícil renunciar.

É porisso mesmo que o olhar do povo continua até hoje, depois de tantos milênios, à espera dos santos e sábios que queiram ser seus cristalinos, o poder transferidor. Além do quê, é claro, sempre que há um candidato sério, sendo santo ou sábio, ele é caçado, queimado na fogueira, flechado, retalhado, enforcado, desmembrado, eletrocutado, enforcado, etc. Ai, que arrepio! Mas que seria curioso, isso seria mesmo.

Vitória, sexta-feira, 05 de setembro de 2003.

José Augusto Gava.

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