sexta-feira, 10 de março de 2017


O Mundo que Nos Cerca

 

                            Pelas previsões ecológicas das décadas dos 1960 e 1970 o mundo dos 2000 estaria morto e enterrado. Estaríamos vivendo de restos em meio à radiação atômica as poucas criaturas deformadas e desesperadas que tivessem sobrado.

                            Olho pela minha janela e vejo pássaros cantando em Jardim da Penha, bairro de Vitória, o ar brilha, leve garoa molha a grama. Lá longe talvez a chuva ácida esteja caindo na Floresta Negra, o Buraco na Camada de Ozônio sobre a Antártica tenha migrado para os lados da Europa, efluxos desçam os ricos, pneus e dejetos estejam poluindo rios e baías - a vida está longe de ser como antes. Não é mais pura e cristalina a água que desce depois do fim do inverno no Norte, desde as fontes de neve das encostas das montanhas, mas também não estamos criando famélicos restos orgânicos em estufas, nem há duas espécies que se digladiam como criaturas totalmente antagônicas.

                            Parece que as precisões dos extremos não se realizaram.

                            Muitas espécies se extinguiram irremediavelmente, mas eram da primeira natureza, biológica/p.2, enquanto muitas invenções novas da segunda natureza, psicológica/p.3, emergiram, e puderam fazer rir milhões. Não houve observação isenta à esquerda e nem à direita do nosso caminho. O que houve foi paixão de um e outro lado, tiroteio, agressões, terrorismo, ofensas, desconsideração de uns pelos outros, redução da humanidade, desumanização, enfeamento de nossa dignidade. Com um pouco mais de acordo e respeito mútuo poderíamos ter poupado mais espécies, arranjando para elas alguns santuários em terras que nunca usamos ou pretendemos usar. Com um pouco mais de simplicidade d’alma poderíamos não ter castigado tanto os outros seres humanos – poderíamos ter nos abraçado em mais profunda humanidade.

                            Quem sabe os extremistas de um e outro lado pudessem ter sido mais do centro, pudessem ter feito propostas alternativas aos procedimentos sem tanto ódio no coração!

                            Olhando o mundo que nos cerca, nós não compreendemos mesmo as vastidões do Projeto. Certamente nós, de um lado e do outro, e do centro, podemos fazer muito mais em nome de todos: para mantermos vivos juntos de nós os nossos do passado, vivermos melhor com os nossos do presente e deixarmos melhor o mundo para os nossos do futuro.

                            Vitória, sábado, 30 de agosto de 2003.

Nenhum comentário:

Postar um comentário