O Mundo que Nos Cerca
Pelas previsões
ecológicas das décadas dos 1960 e 1970 o mundo dos 2000 estaria morto e
enterrado. Estaríamos vivendo de restos em meio à radiação atômica as poucas criaturas
deformadas e desesperadas que tivessem sobrado.
Olho pela minha
janela e vejo pássaros cantando em Jardim da Penha, bairro de Vitória, o ar
brilha, leve garoa molha a grama. Lá longe talvez a chuva ácida esteja caindo
na Floresta Negra, o Buraco na Camada de Ozônio sobre a Antártica tenha migrado
para os lados da Europa, efluxos desçam os ricos, pneus e dejetos estejam
poluindo rios e baías - a vida está longe de ser como antes. Não é mais pura e
cristalina a água que desce depois do fim do inverno no Norte, desde as fontes
de neve das encostas das montanhas, mas também não estamos criando famélicos
restos orgânicos em estufas, nem há duas espécies que se digladiam como
criaturas totalmente antagônicas.
Parece que as
precisões dos extremos não se realizaram.
Muitas espécies se
extinguiram irremediavelmente, mas eram da primeira natureza, biológica/p.2,
enquanto muitas invenções novas da segunda natureza, psicológica/p.3, emergiram,
e puderam fazer rir milhões. Não houve observação isenta à esquerda e nem à
direita do nosso caminho. O que houve foi paixão de um e outro lado, tiroteio,
agressões, terrorismo, ofensas, desconsideração de uns pelos outros, redução da
humanidade, desumanização, enfeamento de nossa dignidade. Com um pouco mais de
acordo e respeito mútuo poderíamos ter poupado mais espécies, arranjando para
elas alguns santuários em terras que nunca usamos ou pretendemos usar. Com um
pouco mais de simplicidade d’alma poderíamos não ter castigado tanto os outros
seres humanos – poderíamos ter nos abraçado em mais profunda humanidade.
Quem sabe os extremistas
de um e outro lado pudessem ter sido mais do centro, pudessem ter feito
propostas alternativas aos procedimentos sem tanto ódio no coração!
Olhando o mundo que
nos cerca, nós não compreendemos mesmo as vastidões do Projeto. Certamente nós,
de um lado e do outro, e do centro, podemos fazer muito mais em nome de todos:
para mantermos vivos juntos de nós os nossos do passado, vivermos melhor com os
nossos do presente e deixarmos melhor o mundo para os nossos do futuro.
Vitória, sábado, 30
de agosto de 2003.
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