segunda-feira, 13 de março de 2017


O Lula e o PT que Perderam

 

                            Juremir Machado da Silva, em seu livro O Pensamento do Fim do Século, Porto Alegre, L&PM, 1993, ao entrevistar Jean Baudrillard no capítulo A Guerra do Golfo não Aconteceu, p. 165 e seguintes, na página 170 coloca: “JB - A força acabou, substituída pela inércia. A esquerda faz o trabalho da direita, gerando a falsa estabilidade, desconflitualizada, uma chantagem ao consenso. A esquerda se obriga a investir no desgaste: o socialismo. JMS – Quando Lula perdeu a eleição no Brasil alguns sociólogos disseram a partir do pensamento de Baudrillard, que era a sua grande vitória, pois salvara-se do poder. JB – Para a esquerda, neste sentido, é uma desgraça alcançar o poder. Também aqui, no entanto, é importante observar as diferenças entre os países. No Brasil talvez haja ainda, senão luta de classes, a violência social que alimenta a esquerda. Vimos isso durante a campanha de Lula, muito semelhante à do Front Popular Francês”.

                            A entrevista é de junho de 1991.

                            Veja que aconteceu isso mesmo, posto o Lula e o PT no poder:

1.       A força que era prometida antes foi substituída pela inércia igualzinha à dos governos burgueses;

2.      A esquerda-PT está fazendo o trabalho da direita;

3.      Está sendo, como antes, gerada a falsa estabilidade (que empurra as soluções para diante);

4.     Há, via MST, uma chantagem de consenso (pressão do MST visando “soluções pacíficas” de ocupação);

5.      Para o PT foi uma desgraça alcançar o poder, porque lançou-se vorazmente (tal como previ) à ocupação dos cargos (sendo em maior número e tendo menos tempo – quatro a oito anos, conforme o caso para enriquecer, há urgência maior);

6.     O PT alimenta a coletividade com a violência contida e estudada do MST e do Movimento dos Sem-Teto;

7.      Claro, o PT tende a copiar toda experiência de esquerda, no sentido de sangrar PARTIDARIAMENTE o poder durante os quatro ou oito anos.

Quando saí do PT em 1985 eu disse que ele ganharia os votos (eleição) e o poder (cargos) e perderia o povo, sua missão. Era fatal: quem não conhece a pequenez das esquerdas periféricas, que não têm projetos, nem práticos nem teóricos, de verdadeira solução nacional? O Lula perdeu suas ilusões, o PT perdeu sua chance histórica, mas o Brasil ganhou, porque quatro ou oito anos pode jogar para ganhar uma convicção muito mais larga e útil: de que as ilusões se renovam, inclusive com o auxílio das esquerdas, e que sempre haverá uma esquerdíssima mais à esquerda da esquerda que irá pleitear ser a próxima condutora da verdade, e isso será igualmente mentira.

Portanto, como eu disse, eram quatro ou oito anos dispensáveis, frente à experiência geo-histórica de um povo que já tem 500 anos, assim como o era a presença da Marta Suplício frente à Prefeitura de São Paulo – um custo de trânsito, um pedágio pago à geo-história.

Vitória, terça-feira, 09 de setembro de 2003.

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