O Lula e o PT que
Perderam
Juremir Machado da
Silva, em seu livro O Pensamento do Fim
do Século, Porto Alegre, L&PM, 1993, ao entrevistar Jean Baudrillard no
capítulo A Guerra do Golfo não Aconteceu,
p. 165 e seguintes, na página 170 coloca: “JB - A força acabou, substituída
pela inércia. A esquerda faz o trabalho da direita, gerando a falsa
estabilidade, desconflitualizada, uma chantagem ao consenso. A esquerda se
obriga a investir no desgaste: o socialismo. JMS – Quando Lula perdeu a eleição
no Brasil alguns sociólogos disseram a partir do pensamento de Baudrillard, que
era a sua grande vitória, pois salvara-se do poder. JB – Para a esquerda, neste
sentido, é uma desgraça alcançar o poder. Também aqui, no entanto, é importante
observar as diferenças entre os países. No Brasil talvez haja ainda, senão luta
de classes, a violência social que alimenta a esquerda. Vimos isso durante a
campanha de Lula, muito semelhante à do Front Popular Francês”.
A entrevista é de
junho de 1991.
Veja que aconteceu
isso mesmo, posto o Lula e o PT no poder:
1. A força que era prometida antes foi
substituída pela inércia igualzinha à dos governos burgueses;
2. A esquerda-PT está fazendo o trabalho
da direita;
3. Está sendo, como antes, gerada a falsa
estabilidade (que empurra as soluções para diante);
4. Há, via MST, uma chantagem de consenso
(pressão do MST visando “soluções pacíficas” de ocupação);
5. Para o PT foi uma desgraça alcançar o
poder, porque lançou-se vorazmente (tal como previ) à ocupação dos cargos
(sendo em maior número e tendo menos tempo – quatro a oito anos, conforme o
caso para enriquecer, há urgência maior);
6. O PT alimenta a coletividade com a
violência contida e estudada do MST e do Movimento dos Sem-Teto;
7. Claro, o PT tende a copiar toda
experiência de esquerda, no sentido de sangrar PARTIDARIAMENTE o poder durante
os quatro ou oito anos.
Quando saí do PT em 1985 eu disse que
ele ganharia os votos (eleição) e o poder (cargos) e perderia o povo, sua
missão. Era fatal: quem não conhece a pequenez das esquerdas periféricas, que
não têm projetos, nem práticos nem teóricos, de verdadeira solução nacional? O
Lula perdeu suas ilusões, o PT perdeu sua chance histórica, mas o Brasil
ganhou, porque quatro ou oito anos pode jogar para ganhar uma convicção muito
mais larga e útil: de que as ilusões se renovam, inclusive com o auxílio das
esquerdas, e que sempre haverá uma esquerdíssima mais à esquerda da esquerda
que irá pleitear ser a próxima condutora da verdade, e isso será igualmente
mentira.
Portanto, como eu disse, eram quatro ou
oito anos dispensáveis, frente à experiência geo-histórica de um povo que já
tem 500 anos, assim como o era a presença da Marta Suplício frente à Prefeitura
de São Paulo – um custo de trânsito, um pedágio pago à geo-história.
Vitória, terça-feira, 09 de setembro
de 2003.
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