domingo, 12 de março de 2017


Mandarins

 

                            No livro citado de Juremir Machado da Silva, p. 23 e seguintes, ele entrevista (novembro de 1989) a José Arthur Gianotti e há esta passagem na p. 28:

                            “JMS – E a intelectualidade brasileira?

                            “JAG – A intelectualidade brasileira não é mais uma intelectualidade de mandarins. Tem um grupo particular e a enorme vantagem de possuir uma produção média, mas, em compensação, estamos perdendo o sentido dos grandes intelectuais, dos grandes líderes, capazes de pensar de uma forma inovadora”.

                            O Mandarinato, que é o nome da instituição Oriental representada no Ocidente pela Autoridade, foi o gélido controle da independência individual e, portanto, dos valores sobrepujadores, tão temidos pela média e os subnutridos incompetentes (por decisão oportunista ou má-sorte). A genialidade é desaconselhada e evitada nas sociedades, civilizações, culturas arcaicas, obsoletas, caducas, retrógradas, como foi a chinesa até 1949, e como é ainda a brasileira, ou perifericamente dependentes das nações centrais de primeiro e segundo mundos. E isso porque A GENIALIDADE REVOLVE os conceitos e as práticas de que vivem os oportunistas. Onde o oportunismo, o excesso admitido ou tolerado de aproveitamento de oportunidades, é excessivo e tornou-se, como no Brasil, não apenas uma realidade, mas um convite aberto à boa-vida; onde as coletividades não são capazes de impulsionar via pressões tecnocientíficas as mudanças de base CONTINUAMENTE a genialidade é um acinte, é um perigo, porque desacomoda, retira os objetos e os processos da estocagem errada mas antiga, onde foram postos em prateleiras dificilmente acessíveis pelos de fora, os que ficaram de fora dos acordos de aproveitamento dos conjuntos.

                            Graças aos céus que a sociedade brasileira não é mais, parcialmente, uma sociedade de mandarins, de medalhões, de oráculos em pedestais ditando as verdades. Algo de novo se produz. E é claro que estamos perdendo o sentido dos grandes intelectuais, dos grandes líderes – graças aos céus, novamente, porque eram eles, justamente, que bloqueavam a renovação, o aparecimento dos renovos, das novidades, que ficam administrando comodamente umas tantas ou quantas sabedorias de praxe. Eles nunca pensaram de forma inovadora e a prova disso é que os avanços brasileiros colocaram 20 % da população de posse de 80 % da riqueza e que na última década os 13 % da riqueza que ficavam nas mãos de 1 % das famílias ficam agora em poder de 0,6 %, dobrando a concentração da renda.

                            Agora já há alguma pesquisa & desenvolvimento teórico e prático tecnocientífico e matemático, além de nos outros modos do Conhecimento, o que é novidade tremenda, que nos dá grande satisfação. Já há lugar para os grupos de pesquisadores menores e para o aparecimento dos grandes postuladores. Isso nos diz que o Brasil não será mais, por muito tempo, uma coletividade subjugada. É um prenúncio auspicioso, esse do Gianotti, pois ele vê antes, vê lá de trás (agora tanto quanto 14 anos) que há essa insurgência do novo, que o novo vem vindo, como disse a Clarice Lispector noutros termos – de dentro da Terra já ouço vindo o novo.

                            Fodam-se os mandarins, arrebentem-se as autoridades – venha a nós a P&D que traz a remodelação dos cenários.
                            Vitória, quinta-feira, 11 de setembro de 2003.         

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