domingo, 12 de março de 2017


Garbe Inexistente

 

                            No livro de Jorge Luis Borges e Alicia Jurado, Buda, 3ª. Edição, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1987 (sobre original argentino de 1977), p. 30, eles dizem: “Garbe cita um texto que diz: ‘Deus não pode ter feito o mundo por interesse, porque não necessita de nada; nem por bondade, porque no mundo existe sofrimento. Logo, Deus não existe’”. Na Nota 21, o tradutor diz: “LACTÂNCIO - Segundo Voltaire atribuiu a Epicuro um argumento parecido: ‘Se Deus quer suprimir o mal e não pode fazê-lo, é impotente; se pode e não quer, é malvado; se não quer nem pode, é ao mesmo tempo malvado e impotente; se quer e pode, como explicar a presença do mal no mundo? ”.

                            As respostas são as seguintes.

PARA GARBE (ele não consta na Britannica nem nas demais enciclopédias).

·        Necessitar, não necessita, mas quer ver o desenvolvimento dos programáquinas, das automontagens desde os começos até os fins a que chegarem;

·        Por bondade, necessariamente, porque a união dos elementos é a indicação. Doado o livre-arbítrio como metade da potência, é a decisão do que livre-escolhe que introduz o mal, por falta de compreensão da totalidade, ou do centro, ou do virtual onde todas as explicações se fecham na Necessidade, que chamei de Vontade Majoritária.

PARA EPICURO (grego de Samos, 341 a 270 antes de Cristo)

·        Deus poderia suprimir o mal, se quisesse, mas não quer, porque o mal é condição de aprendizado para O Mal; então Deus não é impotente;

·        De fato, pode e não quer, mas em lugar de ser mal é Bom, PORQUE é preciso que se renuncie DE PRÓPRIA VONTADE, de livre-arbítrio, que foi doado, dado, justamente para que se passe pela experiência; então Deus não é malvado;

·        Não quer, por enquanto, porque isso seria suprimir o livre-arbítrio, desacreditar das criaturas, achar que elas jamais conseguirão vencer em si e por si mesmas o mal; mas pode, sempre;

·        Não quer - não quis até agora (mas mandou recados terríveis, segundo os mitos bíblicos e de outras lendas de Criação); pode, mas não quer, porque é preciso que todo O Mal, pela renúncia, compreenda, e isso demanda sabedoria, que demanda tempo, que é doença e dor, que é Escola geral do Ser realizado, posto no real.

Então, tanto Epicuro quanto Garbe estão errados.

O não-finito é muito tempo, o espaço ilimitado muito grande, o pluriverso comporta inumeráveis universos, há muita coisa para ver, as criaturas devem entender por si mesmas (mas, certamente, algumas são bem irritantes).

Vitória, domingo, 07 de setembro de 2003.

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