domingo, 12 de março de 2017


As Tristezas de Mamãe

 

                            Em 17 de agosto de 1963 mudamos para Linhares, norte do ES, de Cachoeiro de Itapemirim, sul do ES, porisso deve ter acontecido nas vésperas do Natal de 1962, andando eu constantemente com mamãe. Passeamos de tarde, quase de noite, pelo centro da cidade e já naquela época Cachoeiro, mais avançada que a Capital, Vitória, exibia muitas vitrines de lojas profusamente iluminadas.

                            Meu pai era caminhoneiro, ganhava pouco, pagava prestações, mal tínhamos o que comer, quase na linha da miséria. Não nos faltava, porque mamãe fazia todo tipo de bolo de trigo e outras saídas dos pobres. Mas, naquele Natal em especial não havia um tostão para comprar o mínimo presente para meus irmãos mais velhos, para mim e meu irmão mais novo, sem falar de pai e mãe, que nunca se davam nada.

                            Quando saí mais de noite em casa à procura dela encontrei-a na pequena área chorando, desconsolada, e fiquei ali seu companheiro, quieto e desconsolado também. Aquilo me marcou para sempre e eu entendi a vastidão das dores dos pobres e dos miseráveis, menos agudas hoje na sociedade de consumo. Não se trata do meu caso, mas da exclusão geral que o Capitalismo (em todas as suas ondas) provoca, todas as ausências de gente que é morta hoje pelo tráfico de drogas, por todo gênero de aleijão social, por todo tipo de desgraça que já presenciei. Levo em minha memória, de ter visto mesmo, essa quantidade vastíssima de distorções e dilaceramentos, e imagino o que pode ter existido por aí.

                            Quando me lembro daquele evento penso automaticamente em todas as mães e todos os pais que passaram por tais sentimentos de privação, de não poder oferecer qualquer representação do amor que sentiam. Debito todas essas coisas ao Capitalismo. Fico pensando em todas as tristezas da Grande Mãe.

                            Vitória, sábado, 06 de setembro de 2003.

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