terça-feira, 14 de março de 2017


A Solidão do Escritor

 

                            As PESSOAS (indivíduos, famílias, grupos e empresas) e os AMBIENTES (municípios/cidades, estados, nações e mundo) estão FORTEMENTE costuradas (os) pela Língua geral, de um modo que a gente em geral não visualiza. De fato a Academia (mais uma vez) não estudou direito as linhas lingüísticas que ligam os vários conjuntos dois-a-dois, três-a-três, n-a-n. É até aflitivo ver a necessidade que os seres humanos têm de conversar continuamente, obsessivamente. A Língua geral é uma “medicina”, um remédio que cura, além de ser um veneno que por vezes destrói.

                            De todos os seres humanos o que mais usa a palavra é sem dúvida o escritor (o prosador, o articulista, o poeta, o preparador de discursos, o preparador de manuais, todo desenhista de sentidos que usa as palavras para compor as “figuras de linguagem”, uma escultura especialíssima que também foi pouco estudada). E é também, de todos, o mais solitário, o mais sozinho, o mais distante de todos os demais seres humanos. Está só, consigo mesmo, conversando com seu corpomente, pensamentos e emoções, dia após dia, mês após mês – e quanto mais escreve mais solitário é. Euler, matemático que escreveu mais de 40 mil páginas, foi um dos mais extremadamente sozinhos.

                            Por quê os escritores renunciam a FALAR COM OS OUTROS, essa necessidade imperiosa do SER humano? Pois o humano humaniza-se ou aperfeiçoa-se falando. O escritor, podemos ver, quer dar lições aos demais, ORGANIZAR AS OUTRAS VIDAS. Ora, intromissão é ruim para o intrometido e para os que sofrem a intromissão (a entrada não convidada é equiparada a sofrimento, é um estupro lógico-dialético). Então, por quê? Só pode ser porque há um valor maior ainda que o falar, que é o compartilhamento de futuro, os valores positivos da luta pela sobrevivência do mais apto. Acreditando-se mais apto que os demais o escritor fala PARA SALVAR, como ele se crê salvo. Ele doa-se renunciando à fala para transferir a palavra salvadora. Daí que todo escritor seja, por princípio, um salvador. Se acaba sendo mesmo, ou não, é outra geo-história, mas POR PRINCÍPIO ele deseja resgatar os irmãos e irmãs da perdição. Ele se entrega à solidão para salvar os demais dela.

                            Vitória, terça-feira, 16 de setembro de 2003.

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