A Solidão do Escritor
As PESSOAS
(indivíduos, famílias, grupos e empresas) e os AMBIENTES (municípios/cidades,
estados, nações e mundo) estão FORTEMENTE costuradas (os) pela Língua geral, de
um modo que a gente em geral não visualiza. De fato a Academia (mais uma vez)
não estudou direito as linhas lingüísticas que ligam os vários conjuntos
dois-a-dois, três-a-três, n-a-n. É até aflitivo ver a necessidade que os seres
humanos têm de conversar continuamente, obsessivamente. A Língua geral é uma
“medicina”, um remédio que cura, além de ser um veneno que por vezes destrói.
De todos os seres
humanos o que mais usa a palavra é sem dúvida o escritor (o prosador, o
articulista, o poeta, o preparador de discursos, o preparador de manuais, todo
desenhista de sentidos que usa as palavras para compor as “figuras de
linguagem”, uma escultura especialíssima que também foi pouco estudada). E é
também, de todos, o mais solitário, o mais sozinho, o mais distante de todos os
demais seres humanos. Está só, consigo mesmo, conversando com seu corpomente,
pensamentos e emoções, dia após dia, mês após mês – e quanto mais escreve mais
solitário é. Euler, matemático que escreveu mais de 40 mil páginas, foi um dos
mais extremadamente sozinhos.
Por quê os
escritores renunciam a FALAR COM OS OUTROS, essa necessidade imperiosa do SER
humano? Pois o humano humaniza-se ou aperfeiçoa-se falando. O escritor, podemos
ver, quer dar lições aos demais, ORGANIZAR AS OUTRAS VIDAS. Ora, intromissão é
ruim para o intrometido e para os que sofrem a intromissão (a entrada não
convidada é equiparada a sofrimento, é um estupro lógico-dialético). Então, por
quê? Só pode ser porque há um valor maior ainda que o falar,
que é o compartilhamento de futuro, os valores positivos da luta pela
sobrevivência do mais apto. Acreditando-se mais apto que os demais o escritor
fala PARA SALVAR, como ele se crê salvo. Ele doa-se renunciando à fala para
transferir a palavra salvadora. Daí que todo escritor seja, por princípio, um
salvador. Se acaba sendo mesmo, ou não, é outra geo-história, mas POR PRINCÍPIO
ele deseja resgatar os irmãos e irmãs da perdição. Ele se entrega à solidão
para salvar os demais dela.
Vitória,
terça-feira, 16 de setembro de 2003.
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