sábado, 11 de março de 2017


A Sabedoria da Igreja

 

                            A Igreja lutou por séculos para que durante a semana de sete dias pelo menos um fosse de descanso, porque a nobreza e depois a burguesia queria que os trabalhadores operassem continuamente, por até 20 horas, TODOS OS DIAS. Veio vindo até que chegamos à semana de 35 horas na Europa, 44 horas no Brasil, um mês anual de férias, 30 dias em 365 por ano. Depois a Igreja instituiu o confessionário, onde o padre ouve todos os segredos individuais da coletividade e os administra bem ou mal; os que confessam tem um ponto de fuga psicológico por onde podem fazer vazar as pressões que, de outro modo, acabariam por rebentar em doenças inumeráveis. Isso foi MUITO ANTES de Freud e os psicanalistas, lembre-se. O padre passa uma série de ladainhas (que do ponto de vista cru dos ateus e descrentes em geral não tem qualquer valor) e libera o crente para mais uma semana de pecadilhos. A Igreja foi sábia também em liberar a ordem anual durante três dias de caos da carne, o carnaval, a vazão dos diabos atormentadores.

                            Andei pensando que o mês de férias deveria ser dividido em duas quinzenas, postas cada uma ao final de seis meses, permitindo maior recuperação dos corpos e das almas. E Gabriel falou de intercalar dias de folga com dias de tarefas (um por um, um por dois, um por três, como fosse), mas isso já é impossível, porque a semana é de sete dias, o domingo está firmemente plantado (e agora o sábado também), de modo que essa sugestão dele, embora interessante, é impraticável. Mas o sistema que se conservou no México, da sesta (ou siesta, na sexta hora depois das seis da manhã, portanto, a partir do meio-dia e até as duas da tarde), deveria ser reimplantado e vem sendo mesmo adotado por várias empresas.

                            Em termos práticos os governempresas não vem pensando a questão, até porque o propósito fundamental da burguesia é extrair trabalho, sem pensar muito no outro lado da equação. Não fosse isso, trabalhar ou cumprir tarefas poderia ser bem agradável, se a visão das operações fosse paritária entre os trabalhadores e os empregadores.

                            Vitória, quinta-feira, 11 de setembro de 2003.

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