A Sabedoria da Igreja
A Igreja lutou por
séculos para que durante a semana de sete dias pelo menos um fosse de descanso,
porque a nobreza e depois a burguesia queria que os trabalhadores operassem
continuamente, por até 20 horas, TODOS OS DIAS. Veio vindo até que chegamos à
semana de 35 horas na Europa, 44 horas no Brasil, um mês anual de férias, 30
dias em 365 por ano. Depois a Igreja instituiu o confessionário, onde o padre
ouve todos os segredos individuais da coletividade e os administra bem ou mal; os
que confessam tem um ponto de fuga psicológico por onde podem fazer vazar as
pressões que, de outro modo, acabariam por rebentar em doenças inumeráveis.
Isso foi MUITO ANTES de Freud e os psicanalistas, lembre-se. O padre passa uma
série de ladainhas (que do ponto de vista cru dos ateus e descrentes em geral
não tem qualquer valor) e libera o crente para mais uma semana de pecadilhos. A
Igreja foi sábia também em liberar a ordem anual durante três dias de caos da
carne, o carnaval, a vazão dos diabos atormentadores.
Andei pensando que o
mês de férias deveria ser dividido em duas quinzenas, postas cada uma ao final
de seis meses, permitindo maior recuperação dos corpos e das almas. E Gabriel
falou de intercalar dias de folga com dias de tarefas (um por um, um por dois,
um por três, como fosse), mas isso já é impossível, porque a semana é de sete
dias, o domingo está firmemente plantado (e agora o sábado também), de modo que
essa sugestão dele, embora interessante, é impraticável. Mas o sistema que se
conservou no México, da sesta (ou siesta, na sexta hora depois das seis da
manhã, portanto, a partir do meio-dia e até as duas da tarde), deveria ser
reimplantado e vem sendo mesmo adotado por várias empresas.
Em termos práticos
os governempresas não vem pensando a questão, até porque o propósito
fundamental da burguesia é extrair trabalho, sem pensar muito no outro lado da
equação. Não fosse isso, trabalhar ou cumprir tarefas poderia ser bem
agradável, se a visão das operações fosse paritária entre os trabalhadores e os
empregadores.
Vitória,
quinta-feira, 11 de setembro de 2003.
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