terça-feira, 14 de março de 2017


A Quem Devemos Respeitar...

 

                            J. R. R. Tolkien (sul-africano, 1892 a 1973, 81 anos entre datas), o agora celebradíssimo autor de O Senhor dos Anéis (e de O Hobbit, O Silmarilion, As Aventuras de Tom Bombadil e parcelas de Os Contos Inacabados), fumava cachimbo, porisso quase todos os personagens das suas sagas fumam também, e cachimbo. Ainda não pude comprar uma biografia sua, de modo que me guio por fotos dele sentado numa poltrona inglesa funda, fumando.

                            Ali escreveu os milhares de páginas de suas obras intrincadíssimas, com mapas, com línguas verdadeiras (filologicamente criadas por ele, que era professor), com datação dos eventos, com comunicação dos eventos em muitas passagens - é preciso ler tudo para entender. Os filmes, embora muito interessantes, nem chegam perto de fazer honra ao trabalho portentoso desse homem. Não sei se escrevia com máquina de escrever, ele me parece mais do tipo que escreve com caneta, talvez até caneta-tinteiro – é assim que o imagino, meticulosamente tecendo palavra por palavra como ponto da tramurdidura espantosa que elaborou.

                            No modelo coloquei sete níveis: povo, lideranças, profissionais, pesquisadores, estadistas, santos/sábios e iluminados. Não posso dizer que ele fosse um iluminado, de modo que o patamar mais baixo onde penso que deve estar é na condição de sábio. Ele mudou a literatura para sempre, embora os ficcionistas possam olhar de banda, com certo desprezo que votam à fantasia e à FC (pelas quais tenho a maior consideração, diga-se de passagem, pelas razões que já coloquei).

                            Por exemplo, em O Hobbit há um superclimax, que é A Batalha dos Cinco Exércitos, para onde tudo é conduzido e depois do quê tudo está definido, embora várias passagens sejam emocionantes, como conversamos Gabriel e eu. Já em O Senhor dos Anéis ele construiu vários climaxes, à maneira de Antonio Gaudí, o arquiteto espanhol (Barcelona, província homônima, comunidade autônoma da Catalunha, 1852 a 1926, 74 anos entre datas), com suas torres seguindo a gravidade, Tolkien também levantou catedrais, especialmente projetada a d’O Senhor dos Anéis, que em vários momentos suspende a respiração da gente, com palavras que vão rolando como mel em nossas gargantas.

                            Há um punhado de pessoas desprezíveis por suas palavras e gestos entre nós, humanos, mas há uns grandes, uns que nos salvam de sermos apenas macacos, e fazem com que Deus, nem que seja por um momentinho, olhe para a Terra extasiado.

                            Vitória, domingo, 14 de setembro de 2003.

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