terça-feira, 14 de março de 2017


A Indolência Humana

 

                            No livro de Isaac Asimov, Antologia 2 (1974 – 1989), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992 (original americano de 1989), p. 31, ele diz: “’Assim [segundo Robert Graves, 1972, Intellectual Digest], a máquina a vapor inventada no Egito ptolomaico, cuja finalidade era bombear água para o topo do célebre farol da ilha de Faros, não tardou a ser abandonada, aparentemente porque encorajava a indolência dos escravos, que até então carregavam a água em odres, pelas escadas do farol’. Isso, evidentemente, é pura conversa mole. A ‘máquina a vapor’, inventada no Egito ptolomaico não passava de um brinquedinho, gracioso porém incapaz de bombear água a meio metro de altura. Mas não se incomodem com isso. A narrativa de Graves é inconsistente nos delates, mas consistente na essência”, negrito e itálico meus.

                            Como Michael H. Hart Asimov também não vê que foi Cristo o construtor do Ocidente, que fechou o fosso entre elites e povo e transferiu daquelas o conhecimento a este sob a forma de máquinas, aparelhos, objetos, instrumentos e coisas de uso. No Egito não havia motivação. Eles eram escravistas, não viam os escravos como gente que devesse ser poupada nas tarefas ingratas e difíceis, como o Ocidente admite cada vez mais e o Oriente começou a fazer a partir do século XX, cristianizando-se aos poucos.

                            Se a máquina a vapor ptolomaica, da dinastia de Ptolomeu, general de Alexandre, que governava então o Egito, não passou de um brinquedinho foi porque os sábios de lá, especialmente de Alexandria, a grande capital civilizatória do mundo antigo, não se interessaram em torná-la mais que isso, para que aliviasse a carga dos escravos. Tivessem tido interesse moral teriam transformado o brinquedinho em grandes formestruturas, que por sua vez criariam teares e teriam inaugurado a Revolução Industrial 1.700 anos antes. O Egito teria permanecido o poder central, industrial e tecnocientífico, como veio a ser a Inglaterra depois, justamente quando fez mais do que um brinquedinho, porque as elites britânicas não consideravam seu povo escravo.

                            A escravidão teria terminado uns 15 a 10 séculos antes, o poder teria permanecido oriental, a Europa teria permanecido uma província do Oriente Médio e do Mediterrâneo e o mundo seria outro. Pode até ser feita uma série de FC baseada nisso, nessa pequena alteração.

                            Enfim, Graves está certo: os escravistas acreditavam que incrementava ou estimulava a indolência dos escravos. E até hoje, se o mundo não é mais desenvolvido e próspero, É PORQUE os tecnocientistas e as elites intelectuais e burguesas em geral não se animam em diminuir a carga de trabalho dos operários, em dar-lhes melhores condições de vida, em tornar agradáveis suas existências. Pagamos ainda um alto preço porque muitas de nossas máquinas, aparelhos, instrumentos não passam de brinquedinhos – porque todos os que se julgam “de cima” crêem que as massas (só por usarem esse vocábulo, que dá ao povo injuriosa amorfidade, já se denunciam como preconceituosos) são indolentes, preguiçosas. Mas, pensem, se não são as elites que constroem, só pensam, QUEM CONSTRÓI tudo isso que podemos ver?

                            Se se dedicassem a pedir menos verbas para as “pesquisas puras”, teóricas, e deixassem ir mais dotações para as pesquisas “impuras”, práticas, o mundo daria saltos sucessivos, potencializando-se tanto de onde está agoraqui quanto se potencializou do Egito do ano zero, antes do aparecimento saneador de Cristo. Asimov, que era judeu, deveria ter visto isso.

                            Vitória, sábado, 13 de setembro de 2003.

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