A Indolência Humana
No livro de Isaac
Asimov, Antologia 2 (1974 – 1989),
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992 (original americano de 1989), p. 31, ele
diz: “’Assim [segundo Robert Graves, 1972, Intellectual
Digest], a máquina a vapor inventada no Egito ptolomaico, cuja finalidade
era bombear água para o topo do célebre farol da ilha de Faros, não tardou a
ser abandonada, aparentemente porque encorajava a indolência dos escravos,
que até então carregavam a água em odres, pelas escadas do farol’. Isso, evidentemente,
é pura conversa mole. A ‘máquina a vapor’, inventada no Egito ptolomaico não
passava de um brinquedinho, gracioso porém incapaz de bombear água a meio metro
de altura. Mas não se incomodem com isso. A narrativa de Graves é inconsistente
nos delates, mas consistente na essência”, negrito e itálico meus.
Como Michael H. Hart
Asimov também não vê que foi Cristo o construtor do Ocidente, que fechou o
fosso entre elites e povo e transferiu daquelas o conhecimento a este sob a
forma de máquinas, aparelhos, objetos, instrumentos e coisas de uso. No Egito
não havia motivação. Eles eram escravistas, não viam os escravos como gente que
devesse ser poupada nas tarefas ingratas e difíceis, como o Ocidente admite
cada vez mais e o Oriente começou a fazer a partir do século XX,
cristianizando-se aos poucos.
Se a máquina a vapor
ptolomaica, da dinastia de Ptolomeu, general de Alexandre, que governava então
o Egito, não passou de um brinquedinho foi porque os sábios de lá,
especialmente de Alexandria, a grande capital civilizatória do mundo antigo,
não se interessaram em torná-la mais que isso, para que aliviasse a carga dos
escravos. Tivessem tido interesse moral teriam transformado o brinquedinho em
grandes formestruturas, que por sua vez criariam teares e teriam inaugurado a
Revolução Industrial 1.700 anos antes. O Egito teria permanecido o poder
central, industrial e tecnocientífico, como veio a ser a Inglaterra depois,
justamente quando fez mais do que um brinquedinho, porque as elites britânicas
não consideravam seu povo escravo.
A escravidão teria
terminado uns 15 a 10 séculos antes, o poder teria permanecido oriental, a
Europa teria permanecido uma província do Oriente Médio e do Mediterrâneo e o
mundo seria outro. Pode até ser feita uma série de FC baseada nisso, nessa
pequena alteração.
Enfim, Graves está
certo: os escravistas acreditavam que incrementava ou estimulava a indolência
dos escravos. E até hoje, se o mundo não é mais desenvolvido e próspero, É
PORQUE os tecnocientistas e as elites intelectuais e burguesas em geral não se
animam em diminuir a carga de trabalho dos operários, em dar-lhes melhores
condições de vida, em tornar agradáveis suas existências. Pagamos ainda um alto
preço porque muitas de nossas máquinas, aparelhos, instrumentos não passam de
brinquedinhos – porque todos os que se julgam “de cima” crêem que as massas (só
por usarem esse vocábulo, que dá ao povo injuriosa amorfidade, já se denunciam
como preconceituosos) são indolentes, preguiçosas. Mas, pensem, se não são as
elites que constroem, só pensam, QUEM CONSTRÓI tudo isso que podemos ver?
Se se dedicassem a
pedir menos verbas para as “pesquisas puras”, teóricas, e deixassem ir mais
dotações para as pesquisas “impuras”, práticas, o mundo daria saltos
sucessivos, potencializando-se tanto de onde está agoraqui quanto se
potencializou do Egito do ano zero, antes do aparecimento saneador de Cristo.
Asimov, que era judeu, deveria ter visto isso.
Vitória, sábado, 13
de setembro de 2003.
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