terça-feira, 14 de março de 2017


A Igreja Kuhniana

 

                            Thomas Kuhn publicou a Estrutura das Revoluções Científicas em 1962 e no livro pregava a idéia de que os paradigmas prendem a imaginação e a renovação científica, afunilando a busca do conhecimento. Lendo pela Rede Cognata (veja Livro 2, Rede e Grade Signalíticas) que paradigma = PROGRAMA = PROJEÇÃO = PROTEÇÃO = PROJETOS, etc., podemos observar que há uma direção de pesquisa & desenvolvimento que é firmemente enfeixada.

                            Em seu livro O Sol, o Genoma e a Internet (ferramentas das revoluções científicas), São Paulo, Cia. Das Letras, 2001, p. 32, Freeman Dyson diz: “Isso ocorre com freqüência quando uma nova religião é fundada: seus seguidores tornam-se muito mais inflexíveis e doutrinários que o fundador. Aconteceu entre os seguidores de Thomas Kuhn. O próprio Kuhn nunca pretendeu fundar uma nova religião. Mas há um grupo de filósofos e historiadores da ciência que se autodenominam kuhnianos e propõem visões muito mais extremadas que as dele. Alguns kuhnianos afirmaram que a aceitação de novas teorias científicas baseia-se em lutas pelo poder político e econômico e não em evidências científicas”.

                            Os discípulos e as igrejas só se dispõem a falar pelo mestre quando este já está morto, como é o caso de Kuhn, porque de outro modo poderiam ser desmentidos, como em geral seriam mesmo.

                            Cada forma ou estrutura é centro de uma esfera de possibilidades e toca cada ponto interno e da superfície. Do mesmo modo a questão dos paradigmas toca todas as possibilidades humanas. É claro que o poder político é interferente – quem, em sã demência humana, se ausentaria da chance de poder ditar destino alheio? É evidente que o poder econômico-financeiro burguês capitalista em qualquer das três ondas em qualquer dos quatro mundos não se furtaria À PRECAUÇÃO de orientar os programas de P&D em favor próprio, para a continuidade de sua linha de crescimento capitalista excludente. Agora, é fatal que as evidências tecnocientíficas orientem a disseminação capilar das verbas – mais para aquelas buscas que prometem vitórias sentimentais ou mentais dos pesquisadores. A própria preocupação humanista orientará parte das verbas. A preocupação ecológica outra fração, e assim por diante.

                            É claro, os kuhnianos radicais, da ultra-esquerda, farão de tudo para caracterizar uma teoria conspiratória burguesa, que está longe de ser ou monolítica ou operatória em nível de rendimento satisfatório para ela, até porque ela não é nem de longe hegemônica e focalmente dirigida a um ponto por qualquer vasta consciência unificada. Pelo contrário, a burguesia se rasga em frações, do mesmo modo que o proletariado. A dificuldade vem justamente de manter minimamente unidas as frações em torno de seus interesses básicos.

                            É justamente aí que os tecnocientistas, visando unicamente suas vontades operatórias, inserem-se para postular e obter desvios do que seriam os melhores interesses burgueses. E são tolerados PORQUE de um lado tudo volta por enquanto à burguesia e do outro a chamada “comunidade T/C” (ela também uma ficção útil) é com esses afrouxamentos pacificada. E segue mansamente trabalhando pela preponderância burguesa.

                            Vitória, sábado, 13 de setembro de 2003.

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