Valente Humanidade!
Quando eu tinha três
anos fomos à casa da tia Antônia Perim (Friço), em Burarama, distrito de
Cachoeiro de Itapemirim. Lá no canto dos Perim, acima da casa grande dos meus
avós ficava a outra, bem menor, dela e de tio Otávio Friço. Já contei essa
história, mas irei fazê-lo de novo para ver se tiramos alguma experiência nova.
Como eu tirava
meleca do nariz minha mãe me prometeu um dos bassês da ninhada se eu parasse de
fazê-lo, ao que prontamente aquiesci, com certeza de que conseguiria, Claro,
não consegui, foi mais forte que minhas afirmações e até hoje tiro meleca na
frente de todo mundo, para constrangimento de tantos. Dei-lhe o nome de Valente, porque ele era
atrevido – pequenininhos como são os bassês, ele avançava nas pessoas para nos
defender, corria e matava os ratos que infestavam as redondezas, dava uns
saltos engraçados com as quatro patas, corria atrás do próprio rabo. O Valente
era uma alma de verdade, de longe me cheirava e vinha correndo abanando o
rabinho, aquele côto ridículo. Carinha pontiaguda, uma criaturinha doce. Ele
viveu 18 anos, até os meus 21 anos, quando eu já estava em Vitória, na
faculdade, passando de fracasso em fracasso. Talvez para me castigar, talvez
apenas por raiva mesmo meus parentes chutavam o cachorro, que já estava cego e
puxando de uma perna, até que, graças aos céus, ele morreu e terminou seu
sofrimento.
Vendo como tratavam
o Valente eu perdi um punhado da minha fé na humanidade e creio que nunca mais
a recuperei. Depois vi muitos maltratos a animais e fui juntando no meu
caderninho de julgamento de todas as almas que o praticaram. Mas o sofrimento
despropositado do Valente foi o marco zero do afastamento, do fim da minha
alegria espontânea, de minha total abertura à humanidade. Depois fiz um esforço
extraordinário para ver coisas boas nessa gente daqui e em parte fui
recompensado. Em todo caso, que valente humanidade é essa que maltrata os que
estão em posição inferior de força e poder! Se demorei mais e se em parte não
fiz, credite-se a essas coisas que vi e senti da falta de consideração dos
humanos uns pelos outros e pelos bichos.
Salve, almas
pequenas, minha lembrança eterna a todos vós, sofredores neste mundo.
Certamente haverá junto a Deus um lugar especial para vós.
Vitória, quarta-feira,
03 de setembro de 2003.
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