quarta-feira, 15 de março de 2017


O Sonho e o Pesadelo de Hardy

 

                            No livro já citado de Freeman Dyson, p. 8, ele diz de Hardy: “Ele era um verdadeiro matemático puro, e a mensagem de seu livro é que a matemática pura é o único tipo de matemática digno de respeito”. E abaixo: “E via a matemática aplicada como uma matemática de segunda classe, que com freqüência fazia mais mal do que bem, e abominava a matemática aplicada com especial intensidade quando ela tinha algo a ver com a guerra”. Na p. 9: “Quando eu estava projetando máquinas, costumava pensar na mais famosa declaração do livro de Hardy, aquela que expressava em poucas e amargas palavras sua aversão pela ciência aplicada: ‘Uma ciência é dita útil se seu desenvolvimento tende a acentuar as desigualdades existentes na distribuição de riqueza, ou se promove mais diretamente a destruição da vida humana’”.

                            Hardy não aparece na Barsa eletrônica e é preciso ir até a Britannica de papel ou eletrônica para saber algo dele: matemático inglês, 1877 – 1947.

                            Em primeiro lugar os pares polares opostos/complementares estão sempre fundidos (ainda que não sob vistas humanas), de modo que Hardy estava errado desde o início em separar as matemáticas pura e aplicada, quer dizer, teórica e prática, porque ela é um todo prateórico. Depois, ele se configura como uma daquelas figuras escravistas de origem, de antes de Filo de Alexandria ter processado a junção da razão grega com a fé judaica em torno do ano zero, o que foi o suporte dos avanços introduzidos por Cristo e compactados por São Paulo que permitiram o fechamento parcial do fosso entre povos e elites, permitindo o aparecimento dos povelites ou nações ou culturas e tudo que é modernidade e contemporaneidade cozinhada nas forjas da Idade Média.

                            Era um alexandrino pré-Filo, que sonhava viver em contemplação da Mente de Deus, digamos assim, a Matemática (pura). Como não podia realizar seu sonho, pois corretamente o Ocidente optara pela aplicação ou prática basilar da Matemática a todo o Conhecimento, Hardy sofria constante pesadelo. Pobre Hardy, viveu dois mil anos depois de sua época – uma encarnação errada. Ê, tomem mais cuidado aí em cima!

                            Vitória, domingo, 14 de setembro de 2003.

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