O Apego ao Objeto
O livro de Swami
Prabhavananda, O Sermão da Montanha
(segundo o Vedanta), 2ª. Edição, São Paulo, Pensamento, 1987, p. 24, diz: “Que
quer dizer ‘não roubar’? Quer dizer que precisamos desistir da ilusão egoísta
de que podemos possuir coisas, de que algo pode pertencer-nos de modo
exclusivo, como indivíduos”.
Acontece que a Rede
Cognata (Livro 2, Rede e Grade
Signalíticas) nos diz que pobre = HUMILDE = AMADO = SANTO = SUJO = SANDÁLIA
= SOLITÁRIO, etc., ao passo que ricos = ORGULHOSOS = VAIDOSOS = BOBOS = TOLOS,
etc.
E foi porisso mesmo
que resisti até agora a ter qualquer coisa - seja matéria, seja dinheiro, que é
sua representação. A demonstração mais cabal de que ninguém realmente possui
nada é a morte, pois nada se leva. Desaparecida a funcionalidade da mente que
se escravizava à matéria, ficam o corpo e todos os objetos, milhões deles. O
diretor do filme Lição de Vida,
creio, de Emma Thomson, diz que morrer é desvestir-se de todas as coisas que
estimamos – objetos e pessoas e ambientes, de tudo mesmo. Aquela caneta tão
cara, a banheira Jacuzzi, a montanha, a propriedade de milhares de hectares,
tudo mesmo.
Que é que fica,
então?
Fica o que a pessoa
(indivíduo, família, grupo, empresa) aprendeu e deixou expresso como
aprendizado. Os ricos agarram-se de corpo e alma por milhares de cordões a
milhares de objetos e significações numéricas, representando o dinheiro.
O que nos diz
Prabhavananda?
Que é ilusão do EGO,
da memória, crer que podemos POSSUIR as coisas, sermos as coisas. O que nós
possuímos, verdadeiramente, e assim mesmo por empréstimo durante um certo tempo
(que é curtinho, diga-se de passagem, mal dá para fazer os deveres de casa) é o
corpo, distância bem pequena, e sobre o qual exercemos verdadeiramente a
vontade. Sobre as coisas, emprestam-nas a nós os ambientes (municípios/cidades,
estados, nações e mundos) por convenção denominada Lei (em maiúscula conjunto
ou grupo ou família de leis), uma rede ilusória de pertinência, gratificante
para alguns e até muito gratificante.
Como já vimos, lá
para trás, pobreza é não-ter. É-se pobre de um tijolo, de um BMW, de uma
abotoadura de ouro, etc., de milhares, bilhões, de trilhões de coisas –
absolutamente. Mas não se é rico, porque a riqueza é relativa a ter: quem tem
um barco está numa escala do TER – há outros que tem mais. Como se pode ver
todos são ricos e todos são pobres. Só que ser rico é uma afirmação da ilusão,
enquanto ser pobre é certeza. Por exemplo, sou pobre de não ter apartamento, e
isso é absolutamente certo. Mas que riqueza é ter um televisor? Ela deveria ser
medida contra todas as outras riquezas, uma tarefa inútil, sobre ser
não-finita.
E o televisor está
além-de-mim, ele não é meu como é meu o meu corpo, que ninguém pode tomar.
Mesmo na prisão o corpo da pessoa continua dela. O que foi aprisionado, o que
foi tirado foi a liberdade de ir e vir, incondicionalmente.
As sociedades, que
pela Lei atribuem a posse, também estão iludidas, e só podem fazê-lo com base
na força, que é de quem tem contra quem não tem. Assim, se a posse dos objetos
é atribuída à burguesia ou às elites, ela o é CONTRA O POVO, é uma
arbitrariedade, pelo domínio do poder das armas, que amparam a Lei. A posse é,
por conseguinte, o EXERCÍCIO DA ARBITRARIEDADE DAS ELITES, dos que desejam a
ilusão de ter, os que querem o apego aos objetos, a sujeição. Que esperteza
pode haver em abandonar a humanidade para ficar sujeito A COISAS, A OBJETOS, ao
inerte? As pessoas ficam presas às suas ilusões de possuírem realmente aquelas
coisas. Chamei a isso, no bojo da elaboração do Instituto de Pesquisa do
Futuro, há 25 anos, COMPLEXO DO CORPO EXTENDIDO. O corpo fica enorme, a mente
deve vigiar milhares de objetos, ligando-se a eles pela Lei, instrumentando o
poder e a força de contenção contra os que não têm. O tempo todo a pessoa deve
ficar vigiando, e eventualmente punindo. Claro que hoje em dia, o poder tendo
se tornado tão grande, as pessoas podem refrescar um pouco, podem esquecer, não
é mais como antigamente, quando tinham de ficar tomando conta dos sacos de
arroz. Mas, mesmo assim, a ilusão é um peso, uma carga imensa.
Já que os objetos
são retraídos do uso geral e coletivo para o uso e posse particular, como
estatuído na Lei, eles são mesmo roubados, pois se não fosse assim não
precisariam ser vigiados pelo Judiciário e as Forças Armadas. Então, os ricos
são, além de iludidos, ladrões.
Vitória,
quarta-feira, 10 de setembro de 2003.
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