segunda-feira, 13 de março de 2017


O Apego ao Objeto

 

                            O livro de Swami Prabhavananda, O Sermão da Montanha (segundo o Vedanta), 2ª. Edição, São Paulo, Pensamento, 1987, p. 24, diz: “Que quer dizer ‘não roubar’? Quer dizer que precisamos desistir da ilusão egoísta de que podemos possuir coisas, de que algo pode pertencer-nos de modo exclusivo, como indivíduos”.

                            Acontece que a Rede Cognata (Livro 2, Rede e Grade Signalíticas) nos diz que pobre = HUMILDE = AMADO = SANTO = SUJO = SANDÁLIA = SOLITÁRIO, etc., ao passo que ricos = ORGULHOSOS = VAIDOSOS = BOBOS = TOLOS, etc.

                            E foi porisso mesmo que resisti até agora a ter qualquer coisa - seja matéria, seja dinheiro, que é sua representação. A demonstração mais cabal de que ninguém realmente possui nada é a morte, pois nada se leva. Desaparecida a funcionalidade da mente que se escravizava à matéria, ficam o corpo e todos os objetos, milhões deles. O diretor do filme Lição de Vida, creio, de Emma Thomson, diz que morrer é desvestir-se de todas as coisas que estimamos – objetos e pessoas e ambientes, de tudo mesmo. Aquela caneta tão cara, a banheira Jacuzzi, a montanha, a propriedade de milhares de hectares, tudo mesmo.

                            Que é que fica, então?

                            Fica o que a pessoa (indivíduo, família, grupo, empresa) aprendeu e deixou expresso como aprendizado. Os ricos agarram-se de corpo e alma por milhares de cordões a milhares de objetos e significações numéricas, representando o dinheiro.

                            O que nos diz Prabhavananda?

                            Que é ilusão do EGO, da memória, crer que podemos POSSUIR as coisas, sermos as coisas. O que nós possuímos, verdadeiramente, e assim mesmo por empréstimo durante um certo tempo (que é curtinho, diga-se de passagem, mal dá para fazer os deveres de casa) é o corpo, distância bem pequena, e sobre o qual exercemos verdadeiramente a vontade. Sobre as coisas, emprestam-nas a nós os ambientes (municípios/cidades, estados, nações e mundos) por convenção denominada Lei (em maiúscula conjunto ou grupo ou família de leis), uma rede ilusória de pertinência, gratificante para alguns e até muito gratificante.

                            Como já vimos, lá para trás, pobreza é não-ter. É-se pobre de um tijolo, de um BMW, de uma abotoadura de ouro, etc., de milhares, bilhões, de trilhões de coisas – absolutamente. Mas não se é rico, porque a riqueza é relativa a ter: quem tem um barco está numa escala do TER – há outros que tem mais. Como se pode ver todos são ricos e todos são pobres. Só que ser rico é uma afirmação da ilusão, enquanto ser pobre é certeza. Por exemplo, sou pobre de não ter apartamento, e isso é absolutamente certo. Mas que riqueza é ter um televisor? Ela deveria ser medida contra todas as outras riquezas, uma tarefa inútil, sobre ser não-finita.

                            E o televisor está além-de-mim, ele não é meu como é meu o meu corpo, que ninguém pode tomar. Mesmo na prisão o corpo da pessoa continua dela. O que foi aprisionado, o que foi tirado foi a liberdade de ir e vir, incondicionalmente.

                            As sociedades, que pela Lei atribuem a posse, também estão iludidas, e só podem fazê-lo com base na força, que é de quem tem contra quem não tem. Assim, se a posse dos objetos é atribuída à burguesia ou às elites, ela o é CONTRA O POVO, é uma arbitrariedade, pelo domínio do poder das armas, que amparam a Lei. A posse é, por conseguinte, o EXERCÍCIO DA ARBITRARIEDADE DAS ELITES, dos que desejam a ilusão de ter, os que querem o apego aos objetos, a sujeição. Que esperteza pode haver em abandonar a humanidade para ficar sujeito A COISAS, A OBJETOS, ao inerte? As pessoas ficam presas às suas ilusões de possuírem realmente aquelas coisas. Chamei a isso, no bojo da elaboração do Instituto de Pesquisa do Futuro, há 25 anos, COMPLEXO DO CORPO EXTENDIDO. O corpo fica enorme, a mente deve vigiar milhares de objetos, ligando-se a eles pela Lei, instrumentando o poder e a força de contenção contra os que não têm. O tempo todo a pessoa deve ficar vigiando, e eventualmente punindo. Claro que hoje em dia, o poder tendo se tornado tão grande, as pessoas podem refrescar um pouco, podem esquecer, não é mais como antigamente, quando tinham de ficar tomando conta dos sacos de arroz. Mas, mesmo assim, a ilusão é um peso, uma carga imensa.

                            Já que os objetos são retraídos do uso geral e coletivo para o uso e posse particular, como estatuído na Lei, eles são mesmo roubados, pois se não fosse assim não precisariam ser vigiados pelo Judiciário e as Forças Armadas. Então, os ricos são, além de iludidos, ladrões.

                            Vitória, quarta-feira, 10 de setembro de 2003.

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