terça-feira, 14 de março de 2017


Aqui se Faz, Aqui se Paga

 

                            O povo diz assim, e é mesmo uma pena que a Academia não investigue em profundidade os pesos e os passos geo-históricos e psicológicos contidos na compactação dos adágios ou ditados ou provérbios ou sentenças morais de origem popular.

                            Ou bem a acima colocada é uma indicação de crença ocidental no Carma oriental (sistema de reencarnações para zerar a soma de crimes nas vidas anteriores ou pregressas) ou é uma promessa de perseguição ou é uma expectativa de que haja uma espécie de justiça divina oculta que zere a soma ainda em vida ou é uma longa observação a respeitos dos atos criminosos (com ciclos de retorno) ou é técnica de aconselhamento familiar ou é policiamento social lingüístico ou é qualquer coisa não identificada por mim.

                            O que querem dizer os provérbios para, em primeiro lugar ter sido formulados (nunca são pensados pelos idiotas, pelo contrário, devem sê-lo pelos sábios e santos)? E, depois, para terem sido sustentados (porque ninguém toleraria algo sem utilidade – os adágios também só sobrevivem na luta se têm aptidão explicativa), não devem ter alguma serventia?

                            Nos Estados Unidos estudam qualquer coisa, há tantas universidades e professores, revistas e jornais para publicação, mas no Brasil, não, a tradição é portuguesa. Não estudamos aqui as piadas nem os ditados, nem os costumes populares e das elites, nem os argumentos (furados) de uns e outros para sustentar privilégios, nem as bases do crime dito “organizado”, nem tantas coisas. Estudamos o que os estrangeiros já investigaram antes. Não é ridículo?

                            As miudezas populares são julgadas desprezíveis, como se não fizessem parte do mundo. E não fazem mesmo parte do mundo das elites brasileiras dependentes, dessa antiga sujeição à dominância estrangeira. Porisso as elites daqui jamais mostram mesmo nada de interessante ao mundo.

                            Vitória, terça-feira, 16 de setembro de 2003.

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