sábado, 11 de março de 2017


Acordos de Média

 

                            Como foi mostrado no artigo Matéria em Movimento, neste Livro 40, comentário sobre Russell, evidentemente há um ACORDO PRÉVIO, de fundo, que está estabelecido na micropirâmide (campartícula fundamental, subcampartículas, átomos, moléculas, replicadores, células, órgãos e corpomentes) que igualiza ou assemelha quase todos os observadores, excetos aqueles que por defeito de construção foram privados. No mais os seres humanos, enquanto indivíduos que emergem na mesopirâmide (indivíduos, famílias, grupos, empresas, municípios/cidades, estados, nações e mundo) já chegam ali POSTOS EM MÉDIA, podendo conversar, com base em sentidos externos mais ou menos iguais, semelhantes, e em interpretadores internos que dão respostas mais ou menos parecidas aos estímulos que vem de fora, sobre uma vastidão de assuntos sobre os quais concordam.

                            Pois Russell diz no mesmo livro, Fundamentos da Filosofia, Rio de Janeiro, Zahar, 1977 (sobre original inglês de 1970), p. 134: “(...) teremos de admitir também que o que percebemos pode ser muito diferente do que parecer ser”.

                            Se fosse assim, como haveríamos de construir isso a que denominamos CULTURA, o ponto médio onde povo e elites se encontram para somar sociedade do primeiro com civilização do segundo? Como concordaríamos? Pelo contrário, creio que há grande acurácia ou precisão nos sentidinterpretadores e que fomos empurrados para isso pela evolução pessoambiental, a dupla pergunta-resposta de cada espécie, que a torna diferente e separada quanto, digamos, ao aproveitamento do espectro eletromagnético, isto é, a como cada uma se serve dele para investigar e dominar ou tentar dominar o ambiente e as demais espécies.

                            Evidentemente há um ACORDO EM TORNO DE UMA MÉDIA e disso depende a percepção. O que percebemos NÃO PODE ser muito diferente do que parece ser, porque ao passar pela árvore no dia seguinte nunca vejo a invaginação noutro ponto relativo das impressões somadas, nem, extremamente, do outro lado do tronco. E posso com larga certeza conversar com milhares e milhões de seres humanos, nascidos em coordenadas (latitude, longitude, latitude) espaciais e temporais as mais distantes sem discordar minimamente em torno do que está sendo mostrado: ninguém diz que vê uma borboleta quando A aponta um avião, e assim por diante.

                            Logicamente, também, isso tem grande importância na construção do espaçotempo e da Psicologia civilizatória, pois há uma proliferação ENORME de objetos e de processos, que sem os acordos de média ANTECIPADOS até aquele ponto não poderiam ser produzidos PARA USO COMUM. Com certeza os acordos precisam ser melhorados e, por exemplo, o PROCON (Defesa do Consumidor) é um fechador do fosso das discordâncias entre a ganância solitária das elites e os compradores. A Lei como um todo e em particular o Judiciário, enquanto lei governempresarial justicialista sob domínio burguês, vigiam para que o fosso não se abra em demasia e o que é pedido pelo dinheiro não seja respondido muito distanciadamente pela produção.

                            A Academia, como sempre estúpida, não vê sequer que existem os acordos de média (ou de medida ou de métrica) PORQUE dorme em berço esplêndido onde é afagada pela tolerância programática distribuidora das verbas. Porisso não é capaz de investigar as distorções, as dissonâncias que são, justamente, os apontamentos de maior interesse, porque nesses conflitos estão as indicações potenciais de fim de caminho das espécies, inclusive a humana, claro.

                            Ora, uma pergunta AGUDA é esta: em que ritmo se apuram os acordos metrificadores? Como se sabe a Revolução Francesa foi o primeiro instante postulador de limites rígidos à licenciosidade das elites no seu trato com o povo, e o Sistema Métrico Decimal, mesmo primitivo, que veio dar no contemporâneo Sistema Internacional, SI, já foi “um adianto”, como diz o povo, quer dizer, foi um avanço poderoso no sentido de afinar o encontro para um mínimo aceitável de ligabilidade, a qualidade do que é ligável, povo e elites pós-revolucionárias. E pode-se investigar (renderá muitas teses de mestrado e doutorado) QUANTO o sistema métrico (ou sistema mediador) melhorou a qualidade das relações, em tudo.

                            Russell está novamente errado.

                            Vitória, quinta-feira, 11 de setembro de 2003.

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