A Vida é Fútil?
No mesmo livro de
Chris Rohmann, p. 23, há esta passagem: “Também influenciou o SURREALISMO.
Ligado a ambos os movimentos, o teatro do absurdo chegou ao auge na década de
1950 nas obras de Samuel Beckett, Eugene Ionesco e outros – peças que abriram
mão da forma, da lógica e das características dramáticas tradicionais para
ilustrar a futilidade da vida moderna”.
Eu mesmo sou
marxista e anarco-comunista. Li e desejei encenar as peças dessas camaradas,
pelos quais tenho grande simpatia, porque eles e elas denunciam a farsa
burguesa do enquadramento forçado na obediência da estreiteza, distanciando-se
das grandes perguntas cuja inquietação trazida fosse forte demais e fizessem
sucumbir o acordo de silêncio que beneficia a produçãorganização que está aí
posta.
Leia o artigo O Centro como Absurdo, deste Livro 40,
para ver que aos existentes, longe da essência que só pode ser de UM,
diferentes graus de incerteza e desespero podem corroer. É útil forçar os
limites da burguesia em seus contratos mais frouxos, expondo a futilidade de
seus projetos modernos e contemporâneos, embora a Vida, como tal, em sua
totalidade e em suas particularidades, longe esteja de ser fútil.
Estive por ser
adepto total, enquanto fui simpatizante, do existencialismo e do surrealismo
PORQUE pelo menos eles estraçalham a vulgaridade burguesa, das elites,
aglomerada naquele título geral de “esqueçamos as complexidades” em nome do
aproveitamento DO QUE HÁ (e nós sabemos que o que há de melhor vai sempre para
poucos). À classe dominante não interessa os posicionamentos absurdizantes,
chocantes, contrastantes, que demandam as dilacerações, as desconfianças que
levam às posições revolucionárias, aos desacordos. Embora o existencialismo e o
surrealismo não sejam revolucionários em si mesmos e simplesmente proponham uma
dominância MAIS ELEGANTE E SUTIL, ou seja, uma DEMÊNCIA PASSÁVEL, mais
disfarçada, que dê espaçotempo para a exposição dos limites tentadores, ainda
assim são cativantes, porque propõe a questão central de ir até o limite
tentando perceber – e é isso que arranca de tudo, inclusive da idéia de
dominância.
É claro que a Vida
não é fútil, ela não é descartável, nem como existência que propõe conjuntos
reais de soluções, nem como essência que propõe a solução definitiva. E
evidentemente ela não é desprezível para os que, embaixo, sofrem e como
complemento da soma zero se alegram naqueles momentos em que dão saltos,
sentimentais ou racionais. Não é, está longe de ser. Mas chamar a atenção para
isso foi da maior importância.
Vitória, sábado, 06
de setembro de 2003.
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