sábado, 11 de março de 2017


A Vida é Fútil?

 

                            No mesmo livro de Chris Rohmann, p. 23, há esta passagem: “Também influenciou o SURREALISMO. Ligado a ambos os movimentos, o teatro do absurdo chegou ao auge na década de 1950 nas obras de Samuel Beckett, Eugene Ionesco e outros – peças que abriram mão da forma, da lógica e das características dramáticas tradicionais para ilustrar a futilidade da vida moderna”.

                            Eu mesmo sou marxista e anarco-comunista. Li e desejei encenar as peças dessas camaradas, pelos quais tenho grande simpatia, porque eles e elas denunciam a farsa burguesa do enquadramento forçado na obediência da estreiteza, distanciando-se das grandes perguntas cuja inquietação trazida fosse forte demais e fizessem sucumbir o acordo de silêncio que beneficia a produçãorganização que está aí posta.

                            Leia o artigo O Centro como Absurdo, deste Livro 40, para ver que aos existentes, longe da essência que só pode ser de UM, diferentes graus de incerteza e desespero podem corroer. É útil forçar os limites da burguesia em seus contratos mais frouxos, expondo a futilidade de seus projetos modernos e contemporâneos, embora a Vida, como tal, em sua totalidade e em suas particularidades, longe esteja de ser fútil.

                            Estive por ser adepto total, enquanto fui simpatizante, do existencialismo e do surrealismo PORQUE pelo menos eles estraçalham a vulgaridade burguesa, das elites, aglomerada naquele título geral de “esqueçamos as complexidades” em nome do aproveitamento DO QUE HÁ (e nós sabemos que o que há de melhor vai sempre para poucos). À classe dominante não interessa os posicionamentos absurdizantes, chocantes, contrastantes, que demandam as dilacerações, as desconfianças que levam às posições revolucionárias, aos desacordos. Embora o existencialismo e o surrealismo não sejam revolucionários em si mesmos e simplesmente proponham uma dominância MAIS ELEGANTE E SUTIL, ou seja, uma DEMÊNCIA PASSÁVEL, mais disfarçada, que dê espaçotempo para a exposição dos limites tentadores, ainda assim são cativantes, porque propõe a questão central de ir até o limite tentando perceber – e é isso que arranca de tudo, inclusive da idéia de dominância.

                            É claro que a Vida não é fútil, ela não é descartável, nem como existência que propõe conjuntos reais de soluções, nem como essência que propõe a solução definitiva. E evidentemente ela não é desprezível para os que, embaixo, sofrem e como complemento da soma zero se alegram naqueles momentos em que dão saltos, sentimentais ou racionais. Não é, está longe de ser. Mas chamar a atenção para isso foi da maior importância.

                            Vitória, sábado, 06 de setembro de 2003.

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