terça-feira, 14 de março de 2017


A Vida Utilitária

 

                            Chamarei assim a vida daquelas pessoas (indivíduos, famílias, grupos e empresas) que, tendo, por exemplo, um empreendimento comercial, vivem quase exclusivamente para ele. Vão para casa, criam os filhos, compram carro, passeiam às vezes nas férias, visitam os parentes, cuidam da escola dos filhos, é claro, tudo isso, e pesadamente centram-se nas utilidades da vida. Não se desviam, não lêem um livro com medo de serem contaminadas pelas idéias (e espalham que conheceram pessoas que “ficaram doidas” lendo), mal assistem a um filme, se não é polêmico. Nunca foram a teatro, não vão a shows “gastar dinheiro à toa”. Não pensam nem por um minuto em subverter a sociedade (“de modo algum, doutor”), não se desviam dos preceitos religiosos, comungam com a mais média das idéias correntes a respeito de todas e de cada coisa.

                            Vestem-se como todos e cada um, com poucas diferenças, mandam com duplo remorso a doação da Criança Esperança (de dar, porque teria outra utilidade; mas se não desse pegaria mal) todo ano, sentindo-se mais próximos de Deus ou do Roberto Marinho. Lêem Caras para ver como os ricos são bonitos, felizes, despreocupados (não conhecem a Soma Zero) e tem as melhores casas e roupas. Toda informação recebida fica empacotada, para não gerar ação que pudesse comprometer politicamente.

                            Pois bem, a existência é uma pirâmide mesmo: povo, lideranças, profissionais, pesquisadores, estadistas, santos/sábios e iluminados. A base, quadrado de maior área, comporta mais gente. Veja um grande quadrado cheio de indivíduos em pé, cada um se esforçando para não se mexer muito para não incomodar o vizinho e não chamar a atenção das autoridades vigilantes. Podem ter qualquer economia, serem autônomos, ou trabalhadores, aquela gente que acorda, toma café, vai para o trabalho, almoça, volta para casa, final de semana faz um churrasco, tudo perfeitamente comum, como Chico Buarque colocou nas músicas dele.

                            Sem nenhuma sabedoria suspeita eles vão em frente (“você viu, o filho de fulano saiu do curral”) e são, claro, necessários. Não fosse essa sua acomodação, sua visão mais reta e curtinha, os outros não poderiam cumprir suas missões. O aborrecimento que provocam por sua cegueira é do mesmo tamanho de sua utilidade. A gente demora em ver isso.

                            Vitória, quinta-feira, 18 de setembro de 2003.

Nenhum comentário:

Postar um comentário