A Vida Utilitária
Chamarei assim a
vida daquelas pessoas (indivíduos, famílias, grupos e empresas) que, tendo, por
exemplo, um empreendimento comercial, vivem quase exclusivamente para ele. Vão
para casa, criam os filhos, compram carro, passeiam às vezes nas férias,
visitam os parentes, cuidam da escola dos filhos, é claro, tudo isso, e
pesadamente centram-se nas utilidades da vida. Não se desviam, não lêem um
livro com medo de serem contaminadas pelas idéias (e espalham que conheceram
pessoas que “ficaram doidas” lendo), mal assistem a um filme, se não é
polêmico. Nunca foram a teatro, não vão a shows “gastar dinheiro à toa”. Não
pensam nem por um minuto em subverter a sociedade (“de modo algum, doutor”),
não se desviam dos preceitos religiosos, comungam com a mais média das idéias
correntes a respeito de todas e de cada coisa.
Vestem-se como todos
e cada um, com poucas diferenças, mandam com duplo remorso a doação da Criança
Esperança (de dar, porque teria outra utilidade; mas se não desse pegaria mal)
todo ano, sentindo-se mais próximos de Deus ou do Roberto Marinho. Lêem Caras para ver como os ricos são
bonitos, felizes, despreocupados (não conhecem a Soma Zero) e tem as melhores
casas e roupas. Toda informação recebida fica empacotada, para não gerar ação
que pudesse comprometer politicamente.
Pois bem, a
existência é uma pirâmide mesmo: povo, lideranças, profissionais,
pesquisadores, estadistas, santos/sábios e iluminados. A base, quadrado de
maior área, comporta mais gente. Veja um grande quadrado cheio de indivíduos em
pé, cada um se esforçando para não se mexer muito para não incomodar o vizinho
e não chamar a atenção das autoridades vigilantes. Podem ter qualquer economia,
serem autônomos, ou trabalhadores, aquela gente que acorda, toma café, vai para
o trabalho, almoça, volta para casa, final de semana faz um churrasco, tudo
perfeitamente comum, como Chico Buarque colocou nas músicas dele.
Sem nenhuma
sabedoria suspeita eles vão em frente (“você viu, o filho de fulano saiu do
curral”) e são, claro, necessários. Não fosse essa sua acomodação, sua visão
mais reta e curtinha, os outros não poderiam cumprir suas missões. O
aborrecimento que provocam por sua cegueira é do mesmo tamanho de sua
utilidade. A gente demora em ver isso.
Vitória, quinta-feira,
18 de setembro de 2003.
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