Que Razão?
Altamiro Pires Borges acabou de publicar o
livro América Latina, Submissão ou Razão,
São Paulo, Anita, 2003 (agosto), atualização de um texto inédito de 30 anos,
como ele mesmo diz.
É grande o alcance
do Altamiro na percepção mais fina das questões que os outros revolucionários
não atingem, ou seja, ele não é um revolucionário de meia pataca, nem no
sentido de perjuro de sua fé, nem naquele outro de ser pequeno, pelo contrário.
Faz devassa verdadeira e útil dos elementos de transformação e avanço.
Inquieta-me somente
que contraposta à submissão esteja só a porta das razões, das estruturas, das
idéias, dos conceitos, dos pensamentos, das cerebrações, sem o mínimo espaço
para os sentimentos, as emoções, as ações intempestivas – o que de pronto
excluirá a metade mais interessante dos pretendentes a participantes. Pois
ficam de fora os que não forem intelectuais, dados a intelecções, a razões, às
elaborações de pensamentos. Ficam de fora os que querem a revolução, mas não
sabem pensá-la como vias estabelecidas, que fossem colagens mais ou menos
espertas daqueles pensados alhures, inclusive as de vias marxistas e
leninistas, ou como caminhos autênticos, os que aqui surgissem, os que tivessem
nascido de nossos corações.
O apontamento é a
razão como contraponto da submissão.
Se não queremos a
submissão, pensemos. Claro, devemos pensar, é fundamental, mas é importante
também dar lugar à sensação, ao intempestivo, ao que não cabe, por ser
heterodoxo, de momento, irrefletido, caótico, anárquico, dentro dos arquétipos
que já tem defesas preparadas.
Porque a saída não é
somente a razão.
A saída deve ter
lugar para os que não podem chegar à razão, porque ela ficou famélica refém da
fome institucionalizada na estrada das décadas. A saídas deve ter espaço para
os analfabetos, os desamados, os que NÃO PERTENCEM à ordem das coisas, ou de
outro modo a saída se contrairá novamente em comitês centrais fracassados, em
dachas, em segregações disfarçadas, em queda.
Vitória,
quinta-feira, 04 de setembro de 2003.
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