sábado, 11 de março de 2017


Que Razão?

 

                             Altamiro Pires Borges acabou de publicar o livro América Latina, Submissão ou Razão, São Paulo, Anita, 2003 (agosto), atualização de um texto inédito de 30 anos, como ele mesmo diz.

                            É grande o alcance do Altamiro na percepção mais fina das questões que os outros revolucionários não atingem, ou seja, ele não é um revolucionário de meia pataca, nem no sentido de perjuro de sua fé, nem naquele outro de ser pequeno, pelo contrário. Faz devassa verdadeira e útil dos elementos de transformação e avanço.

                            Inquieta-me somente que contraposta à submissão esteja só a porta das razões, das estruturas, das idéias, dos conceitos, dos pensamentos, das cerebrações, sem o mínimo espaço para os sentimentos, as emoções, as ações intempestivas – o que de pronto excluirá a metade mais interessante dos pretendentes a participantes. Pois ficam de fora os que não forem intelectuais, dados a intelecções, a razões, às elaborações de pensamentos. Ficam de fora os que querem a revolução, mas não sabem pensá-la como vias estabelecidas, que fossem colagens mais ou menos espertas daqueles pensados alhures, inclusive as de vias marxistas e leninistas, ou como caminhos autênticos, os que aqui surgissem, os que tivessem nascido de nossos corações.

                            O apontamento é a razão como contraponto da submissão.

                            Se não queremos a submissão, pensemos. Claro, devemos pensar, é fundamental, mas é importante também dar lugar à sensação, ao intempestivo, ao que não cabe, por ser heterodoxo, de momento, irrefletido, caótico, anárquico, dentro dos arquétipos que já tem defesas preparadas.

                            Porque a saída não é somente a razão.

                            A saída deve ter lugar para os que não podem chegar à razão, porque ela ficou famélica refém da fome institucionalizada na estrada das décadas. A saídas deve ter espaço para os analfabetos, os desamados, os que NÃO PERTENCEM à ordem das coisas, ou de outro modo a saída se contrairá novamente em comitês centrais fracassados, em dachas, em segregações disfarçadas, em queda.

                            Vitória, quinta-feira, 04 de setembro de 2003.

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