Lógica das Palestras
Já fui a muitas
palestras e vejo as pessoas falarem inúmeras vezes sem qualquer lógica ou
exposição sequencial e dialética ou relação com os ouvintes.
Da parte da seqüência seria preciso
encadeamento - conforme já se sabe – ou começo, meio e fim. O começo é um anúncio de
propósitos, das linhas a seguir, daquilo que se pretende abordar, para que os
ouvintes puxem de suas consciências as memórias adequadas, para que eles se
preparem, estabeleçam um vínculo ou laço com o que será dito. O meio é a exposição propriamente
dita; é, como diz o povo, "vender o peixe", a palavra – é discursar,
é tentar convencer da relevância daquela fala, da não inutilidade dela. É transmitir
a mensagem que nos levou ali. O fim
é, necessariamente, a exposição curta do que foi dito, um resumo categorizado,
posto em categorias bem determinadas, do que se trouxe à platéia, aos ouvintes.
Compactamente o início mostra os objetos, o meio fala deles, o fim lembra em síntese
o que foi dito. É isso.
Da parte das relações devemos
distinguir:
a) RELAÇÃO
ENTRE OBJETOS:
aquelas entre os pontos que estão sendo analisados e sintetizados,
sintanalisados, compactados, conectados, ligados – há RELAÇÃO DE
CO-RESPONDÊNCIA entre eles? Eles respondem uns aos outros? Há relação de suficiência,
mínima linha entre um par? Está bem provado?
b) RELAÇÃO
ENTRE PESSOAS: os
presentes na sala aceitarão os objetos? Se estão muito distantes da discussão
terão dificuldade. Se são poetas, sem treinamento em Física, terão dificuldade
de acompanhar os passos lógicos. Assim, o conferencista deveria ter uma
avaliação da platéia (isso é pressuposto, desde que poetas dificilmente irão a
conferências de física quântica, mas não é sempre verdadeiro – um levantamento
prévio deveria ser feito).
Em resumo, as palestras não foram
estudadas tecnocientificamente, nem muito menos no nível alto, o dialógico, de
lógica-dialética, nem foram ainda tais estudos expostos.
O que vemos nas palestras são as
exposições mais ridículas e dolorosas, sem qualquer propósito, verdadeiras
digressões que nada tem a ver com o propósito anunciado: pessoas colocam suas
realizações, mostrando-se de público, propaganda malfeita de si, sem qualquer
identificação dos objetos nem ligação entre eles. É pura perda de tempo e os
ouvintes ficam enroscando-se nas cadeiras, envergonhados do palestrante e de
si, por terem ido ali, sem poderem ir embora, desejando sumir. É de cortar o
coração.
Não há um livro que coloque bem, fora aqueles
muito tristes que ensinam as técnicas fajutas dos discursos antigos, a retórica
que vem da Antiguidade. Não houve também nisso contemporaniz/ação, o ato
permanente de contemporanizar, tornar contemporâneo, pós-moderno. O quê os
estudiosos estiveram fazendo, para que em tantas seções do fazer humano haja
ainda tal debilidade?
Então, você vai às conferências e
sente vergonha de estar ali, bem como na mesa a agonia dos debatedores,
perdidos que ficam, sem mirar nem conseguir atingir os objetivos, porque não
sabem defini-los, estabelecer metas, alvos claros. É angustiante estar ali. É
inquietante, é frustrante, constitui um mal-estar crescente, na medida em que
decorre a fala, ver que o falante não é logicamente competente. Ele gasta o
tempo da gente sem qualquer proveito visível.
Vitória, domingo, 07
de dezembro de 2003.
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