quarta-feira, 12 de abril de 2017


Lógica das Palestras

 

                            Já fui a muitas palestras e vejo as pessoas falarem inúmeras vezes sem qualquer lógica ou exposição sequencial e dialética ou relação com os ouvintes.

Da parte da seqüência seria preciso encadeamento - conforme já se sabe – ou começo, meio e fim. O começo é um anúncio de propósitos, das linhas a seguir, daquilo que se pretende abordar, para que os ouvintes puxem de suas consciências as memórias adequadas, para que eles se preparem, estabeleçam um vínculo ou laço com o que será dito. O meio é a exposição propriamente dita; é, como diz o povo, "vender o peixe", a palavra – é discursar, é tentar convencer da relevância daquela fala, da não inutilidade dela. É transmitir a mensagem que nos levou ali. O fim é, necessariamente, a exposição curta do que foi dito, um resumo categorizado, posto em categorias bem determinadas, do que se trouxe à platéia, aos ouvintes. Compactamente o início mostra os objetos, o meio fala deles, o fim lembra em síntese o que foi dito. É isso.

Da parte das relações devemos distinguir:

a)      RELAÇÃO ENTRE OBJETOS: aquelas entre os pontos que estão sendo analisados e sintetizados, sintanalisados, compactados, conectados, ligados – há RELAÇÃO DE CO-RESPONDÊNCIA entre eles? Eles respondem uns aos outros? Há relação de suficiência, mínima linha entre um par? Está bem provado?

b)     RELAÇÃO ENTRE PESSOAS: os presentes na sala aceitarão os objetos? Se estão muito distantes da discussão terão dificuldade. Se são poetas, sem treinamento em Física, terão dificuldade de acompanhar os passos lógicos. Assim, o conferencista deveria ter uma avaliação da platéia (isso é pressuposto, desde que poetas dificilmente irão a conferências de física quântica, mas não é sempre verdadeiro – um levantamento prévio deveria ser feito).

Em resumo, as palestras não foram estudadas tecnocientificamente, nem muito menos no nível alto, o dialógico, de lógica-dialética, nem foram ainda tais estudos expostos.

O que vemos nas palestras são as exposições mais ridículas e dolorosas, sem qualquer propósito, verdadeiras digressões que nada tem a ver com o propósito anunciado: pessoas colocam suas realizações, mostrando-se de público, propaganda malfeita de si, sem qualquer identificação dos objetos nem ligação entre eles. É pura perda de tempo e os ouvintes ficam enroscando-se nas cadeiras, envergonhados do palestrante e de si, por terem ido ali, sem poderem ir embora, desejando sumir. É de cortar o coração.

Não há um livro que coloque bem, fora aqueles muito tristes que ensinam as técnicas fajutas dos discursos antigos, a retórica que vem da Antiguidade. Não houve também nisso contemporaniz/ação, o ato permanente de contemporanizar, tornar contemporâneo, pós-moderno. O quê os estudiosos estiveram fazendo, para que em tantas seções do fazer humano haja ainda tal debilidade?

Então, você vai às conferências e sente vergonha de estar ali, bem como na mesa a agonia dos debatedores, perdidos que ficam, sem mirar nem conseguir atingir os objetivos, porque não sabem defini-los, estabelecer metas, alvos claros. É angustiante estar ali. É inquietante, é frustrante, constitui um mal-estar crescente, na medida em que decorre a fala, ver que o falante não é logicamente competente. Ele gasta o tempo da gente sem qualquer proveito visível.
Vitória, domingo, 07 de dezembro de 2003.

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