segunda-feira, 17 de abril de 2017


Comida de Pobre

 

                            Já falei outras vezes que a feijoada é comida de pobre, com restos da mesa dos ricos: pés, orelhas, barrigada, pele, tudo que sobrava do porco, mais o feijão que se cultivava ao pé das casas da favela, e os burgueses não reclamavam para si. Bobó de camarão vem de aipim e camarão, no caso não o grande, mas o pequeno, que ninguém comprava. Rabanada, que é deliciosa, é resto de pão passado em leite com gema de ovo e açúcar, então levado ao óleo quente para fritura. O gostosíssimo “carnaval na zona”, o arroz à grega brasileiro, é feito de todo tipo de restos. As tortas de bacalhau certamente tiveram em Portugal a mesma origem, para não falar da moqueca capixaba.

                            Quantas, entre todas as comidas de todo o espaçotempo racional humano, de toda a geo-história serão derivadas de restos, de coisas que as elites da época rejeitavam e os pobres e miseráveis aproveitavam e depois se tornaram o xodozinho das elites seguintes? Serão talvez milhares, muitas de cada nação.

                            Pois bem, Comida de Pobre seria um livro contando como surgiram os pratos nacionais e muitos dos mais procurados hoje em dia. Quais eram as comidas preferidas na época, depois caídas em desuso? Certamente acontece de os pobres de antes depois de se tornarem ricos e subirem elevarem as antigas comidas-pobres a novo status na mesa dos novos-ricos. Muitas comidas charmosas de hoje na França vieram disso, daqueles miseráveis de 300 anos passados. E quais comidas-de-pobre de hoje serão no futuro manjares? Não seria interessante encontrar e seguir essa trilha desde o mais remoto passado, desde 3,5 mil anos antes de Cristo, quando foi inventada a escrita?

                            Vitória, sexta-feira, 19 de dezembro de 2003.

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