Comida de Pobre
Já
falei outras vezes que a feijoada é comida de pobre, com restos da mesa dos
ricos: pés, orelhas, barrigada, pele, tudo que sobrava do porco, mais o feijão
que se cultivava ao pé das casas da favela, e os burgueses não reclamavam para
si. Bobó de camarão vem de aipim e camarão, no caso não o grande, mas o
pequeno, que ninguém comprava. Rabanada, que é deliciosa, é resto de pão
passado em leite com gema de ovo e açúcar, então levado ao óleo quente para
fritura. O gostosíssimo “carnaval na zona”, o arroz à grega brasileiro, é feito
de todo tipo de restos. As tortas de bacalhau certamente tiveram em Portugal a
mesma origem, para não falar da moqueca capixaba.
Quantas,
entre todas as comidas de todo o espaçotempo racional humano, de toda a
geo-história serão derivadas de restos, de coisas que as elites da época
rejeitavam e os pobres e miseráveis aproveitavam e depois se tornaram o
xodozinho das elites seguintes? Serão talvez milhares, muitas de cada nação.
Pois
bem, Comida de Pobre seria um livro
contando como surgiram os pratos nacionais e muitos dos mais procurados hoje em
dia. Quais eram as comidas preferidas na época, depois caídas em desuso?
Certamente acontece de os pobres de antes depois de se tornarem ricos e subirem
elevarem as antigas comidas-pobres a novo status na mesa dos novos-ricos.
Muitas comidas charmosas de hoje na França vieram disso, daqueles miseráveis de
300 anos passados. E quais comidas-de-pobre de hoje serão no futuro manjares?
Não seria interessante encontrar e seguir essa trilha desde o mais remoto
passado, desde 3,5 mil anos antes de Cristo, quando foi inventada a escrita?
Vitória,
sexta-feira, 19 de dezembro de 2003.
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