O Carrinho do Gari
Já disse em outras
palavras que enquanto o gari não for respeitado este mundo será fraco e
divisível, pois os lixeiros são o elo fraco da corrente que se quebra
justamente ali – está se quebrando todos os dias em todas as partes do mundo,
menos naquelas onde os garis tenham carrinhos desenhados como vou dizer: com
assento almofadado, com tapagem para proteger do sol (calor) e do Sol (luz),
com depósito para água gelada, com ar condicionado até. Que possa aspirar o
lixo sem que ele necessite varrer nem se abaixar constantemente, porque o gari
também é Deus, como disse Jesus: "o que fizerdes ao menor dos meus menores
é a mim mesmo que o fazeis" (para o bem e para o mal); e: "não fazeis
aos outros o que não quereis que vos façam".
Porque sou eu que
estou lá, é você, é cada um dos seres humanos; e se os garis estão sendo
maltratados é a humanidade toda que está. Se não são inventadas soluções para
incorporar o menor de todos, os grandes não serão bastante grandes. Se não for
elevado o povo quem está acima (lideranças, profissionais, pesquisadores,
estadistas, santos/sábios e iluminados) não pode ir muito alto, porque a
pirâmide se achata. Quem dos profissionais formados em universidade iria varrer
diariamente quilômetros e quilômetros de ruas no sol quentíssimo? Quem iria
trabalhar por aqueles salários de fome? Enquanto os que estão embaixo não forem
elevados é porque a sociedade/civilização/cultura do povelite/nação não foi
bastante longe na solução de problemas. Uma sociedade que trata com tanto
desprezo, colocando-os na mais baixa posição de serviço, não pode ir muito
longe nem pela lei dos homens nem pela lei de Deus.
Assim sendo, o carrinho
deve ser alegre, colorido ou pintado, festivo, com depósito atrás, com
automatismos que desprendam os sacos cheios para serem recolhidos por outro
caminhão, com computação embarcada, com telefone, com tudo que qualquer um de
nós gostaria de ter lá. Menos do que a satisfação é patifaria.
Vitória,
segunda-feira, 15 de dezembro de 2003.
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