terça-feira, 18 de abril de 2017


O Jardim das Fêmeas

                            Quando as cavernas que nossos antepassados habitaram são mostradas pelos paleontólogos, elas são sempre vistas despojadas, vazias de tudo dentro e fora, ao passo que devemos pensar terem sido habitadas por milhões de anos pelos pré-hominídeos e por 100, 50 ou 35 mil anos pelos sapiens. Quem pode ficar na mesma casa por milhões de anos sem enfeitá-la? Vimos que por mais iguais que fossem na origem as casas de pombos do BNH (extinto Banco Nacional da Habitação) elas logo se tornavam diferentes e até muito distintas, nos dois sentidos; o universo está sujeito a mudanças e os seres humanos mais ainda, de forma que as alterações logo surgem. E assim terá sido com todas e cada uma das cavernas, adquirindo com os sucessivos moradores muitas feições que os identificavam. Cada caverna terá tido sua marca distintiva.

                            É fatal que as fêmeas, com seu pensamento circular, cíclico, determinado, ficando sempre no mesmo lugar, palmilhando-o e conhecendo-o a fundo, quisessem implantar novidades que renovassem o ambiente; devem ter necessariamente enfeitado as cavernas com plantas, flores, objetos, panos quando estes já existiam, árvores frutíferas, jardins, todo tipo de coisa. Em especial devem ter criado os jardins (não faz sentido os homens caçadores criarem jardins, se não permaneciam muito tempo no mesmo lugar; mas podem ter trazido espécimes de lugares distantes).

                            Assim, três coisas: 1) as mulheres, treinadas pelos hormônios durante milhões de anos serão as melhores jardineiras (mas não necessariamente criativas); 2) toda casa (caverna) deve ter diante dela um jardim; 3) as mulheres devem poder participar como forma de terapia de cursos de jardinagem dados pelas prefeituras e devem poder cuidar de jardins de suas casas e dos prédios de apartamentos.

                            Cuidar de jardins as apaziguará, mesmo aquelas contemporanizadas que têm empregos fora do lar, mesmo as intelectualizadas, as tecnocientistas e outras pesquisadoras, pois OS EXIGENTES VENENOS QUÍMICOS estão lá dentro, operando dia após dia. Se elas não cuidarem de jardins adoecerão. Na realidade estes anos todos as que não fizeram isso adoeceram e têm dentro de si grandes feridas da ausência.

                            Vitória, domingo, 14 de dezembro de 2003.

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