quarta-feira, 9 de agosto de 2017


As Palmas que Bati para Russell

 

                            Filósofo e matemático britânico, Russell (Bertrand Arthur Willian, 3º conde Russell, 1872 a 1970, 98 anos entre datas) é um dos meus heróis, pelo muito que fez. Dentre um dos diversos livros que escreveu, uma parte publicada no Brasil, está ABC da Relatividade (Rio de Janeiro, Zahar, 1960). Ganhei esse exemplar do professor-doutor de física da UFES Antônio Brasil Batista, que o comprou em 1962. Li e reli partes do livro, entendendo alguma coisa e outras não. Esbarrei em certas coisas e não fui para frente. A grande autoridade de Russell e de Einstein e da Física de um modo geral faz com que a gente duvide de nossos pensamentos. Como não pude apossar-me das equações, duvidei mais de mim que deles.

                            Na página 7, ao descrever viagem de King’s Cross para Edimburgo, ele acrescenta: “Ser-lhe-á, portanto, possível dizer e pensar que viajou para Edimburgo, e não que Edimburgo viajou para você, embora esta última hipótese seja igualmente exata”.

                            Ora, nitidamente, diz o “senso popular”, nós viajamos desde Vitória para Linhares e não o contrário. A gente “chega a Linhares”, e nunca o contrário, nunca aconteceu de Linhares não vir à nossa porta. Mas, dito por Russell e Einstein (ou por palavras que colocaram em sua boca) isso é parte da relatividade, quer dizer, tanto ocorreria de estarmos indo para lá quanto a cidade estar vindo para cá. Entretanto, tal não pode ser; e não é nosso senso comum que está errado, são eles, mesmo; só consegui atinar com a resposta definitiva ontem, depois de 30 anos pensando.

                            Se há dois pontos, A e B, ir de A para B implica sentido-direção, digamos sentido A B na direção A— B ou B — A. É só se só existirem esses dois pontos no conjunto de definição (a escuridão correspondendo à inexistência de quaisquer outros dois pontos), que diremos ser equivalente A estar se movimentando para B ou vice-versa, porque de fato não poderíamos decidir; contudo, na Terra há pontos, há retas, há planos e há espaços, onde estão outros pontos. Linhares não muda seus ângulos em relação a Rio Bananal, João Neiva, Jaguaré, Barra Nova e uma infinidade de outros lugares, enquanto que nós, sim, de modo que podemos dizer TAXATIVAMENTE que somos nós que vamos e não Linhares que vem. Onde houver mais que dois pontos, a mudança do que altera seus ângulos-distâncias em relação aos outros dois que não mudam indica que é ele que está se movendo.

                            Não retiro as palmas que bati para Russell, mas nisso ele estava errado. Definitivamente.
                            Vitória, sábado, 27 de novembro de 2004.

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