sábado, 22 de outubro de 2016


Rebel-Dia

 

Essas coisas “vem dar em mim”, como diz o povo.

Pensando bem, não é, pode acontecer com qualquer um, deve acontecer, o fato é que reclamo muito, escrevo, sinto curiosidade. Vai ver que a maioria não sente impulso para reclamar, não acha aquela coisa péssima, acredita ser trivial, comum, entra por um ouvido e sai pelo outro. Dentre estes, há poucos que escrevem, digamos 1/40 ou 2,5 %, uma fração. Dos que escrevem só uma parte é curiosa por natureza e assim por diante, no final das multiplicações das frações fica uma infinitude.

Eu tava naquela fila imensa de supermercado com o livro que levo para filas imensas de supermercado, lendo umas passagens. Também levo minhas canetas de marcação, sem elas não sou nada, esqueceria tudo, criei um sistema para ler, para memorizar: circulações com lápis, três ou quatro canetas de diversas cores, setinha nos trechos ainda mais importantes, de modo que quando volto a ler capto imediatamente.

O cara puxou assunto.

Aquela fila imensa de supermercado ...

Não colocam outros caixas, vivo reclamando, acho até que sou malvisto lá, puta merda, vou ficar quieto? - as pessoas se acomodam.

Tô lá naquela FILA IMENSA de supermercado, acho que tinha pra mais de 10 em cada caixa e ainda por cima com carrinhos abarrotados. Nessas condições, pegue fila de homens, todos ou a maioria, porque mulher fica com a chave do carro numa das mãos, com a outra vai botando coisa por coisa, uma a uma, enquanto os homens usam as duas mãos e quando vão pagar é rápido, mulher fica trocando receita, falando dos filhos, dos problemas da família e as mulheres que são caixas respondem, ficam ali um tempão.

Pegue fila de homens, rapidinho.

Peguei fila com mulheres, duas, só, mas valiam por 10 homens cada.

Fila imensa.

Esse cara puxou assunto, o que eu iria fazer?

Fila imensa, não se esqueça.

Vai daí que ele falou isso, rebel, rebelde, rebel-dia, dia dos rebeldes.

EU (na fila imensa) – e que vem a ser isso?

ELE (nem dando bola pra fila imensa) – bem, se você pensar, o quatro de julho nos EUA marca o dia da libertação deles em relação à Inglaterra, eles eram rebeldes, agora financiam a contrarrevolução.

EU – certo, tô entendendo.

Dei uma olhada, a fila imensa não tinha andando nem um palmo, ainda era a primeira mulher. Olhei para as outras filas, grandes também, cheias de mulheres ou homens acompanhando mulheres, não adianta, são cangados, elas é que são a fonte, entende?

ELE – e no Brasil o 7 de setembro, embora falsificado, não foi um dia dos revoltados?

EU – foi, de fato, foi mesmo, pensando assim.

ELE - e na França, Queda da Bastilha, 14 de julho, não foi revolta do povo?

EU (rejubilando, a Marselhesa, aquela coisa bonita, bacana, vibrando) – é mesmo, cara.

A fila andou um palmo, mas é porque um homem da fila foi chamado pela mulher, que estava em outra, lá foi ele, eu deveria ter pensado em alugar alguém. Os demais da fila aproveitaram para endireitar os carrinhos, que estavam tortos.

ELE – então, fiz uma lista dos dias de libertação de cada país, é claro que de um jeito ou de outro sempre foi movimento rebelde, rebel-dia, dia do rebelde, mas agora travaram.

EU – claro, você queria o quê, os atuais donos do poder usaram o povo para afastar a antiga burguesia e pegar o lugar dela, abanquetando-se no poder.

ELE – aí é que está! Vou publicar livro chamando os povos do mundo à revolta, lembrando exatamente essa sacanagem.

EU (olhando em volta para ver se tinha guardas ou espias que eu já conhecesse, podia ter a P2, polícia da polícia ou policiais civis que eu não conhecesse ou policiais militares à paisana, sei lá, esses pôrras estão em todo lugar, vou lá saber? Olhei a câmera do super, procurei ficar de banda) - olha, esqueci a carteira em casa, tô sem o cartão, vou ter de voltar outro dia, você se incomoda?

Larguei o carrinho ali mesmo, pulei no trecho.

Agora, quando vejo ele, fico todo alegre, dou com a mão, balanço o braço com força e passo longe. Tá doido! Reclamar é uma coisa, fazer é outra muito diferente.

Serra, sábado, 27 de dezembro de 2014.

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