Retífica de Cabeçote
Estávamos quase chegando a Serra Sede, ali na
virada do posto de gasolina onde tem aquela oficina de retífica de cabeçotes.
Eu estava sentado à esquerda, mais para trás uns três pares de cadeiras, um
deles reparou na oficina, pareciam grandes amigos, vinham desde a Audifax
empurrando um ao outro com os ombros, fiquei pensando: é a dialética, muita
alegria, vai dar briga.
UM – tá vendo?
OUTRO – o quê?
UM – retífica de cabeçote.
OUTRO – e daí?
UM (arqueou as sobrancelhas, apontou a cabeça
para a direita como quem diz “olha lá”) – retífica de cabeçote ...
OUTRO – sei o que é, conserto de motor, sou
caminhoneiro, tá lembrado, tamos indo buscar meu carro, por que estaríamos no
ônibus?
UM (insistindo; acho que ele precisava
retificar o Semancol) – cabeçote ... cabeça pequena.
OUTRO (não querendo perder a amizade) – o que
você quer dizer com isso?
UM (não pegando a dica) – cabeçote, cabeça
pequena, retífica, verbo retificar, corrigir.
OUTRO – você deveria ser menos esperto.
Eu tava gravando tudo com o celular, depois precisei
depurar no computador, maravilha essas maquininhas, uma beleza.
UM (atolando no pântano das provocações) –
retificar a pequena cabeça, isso não lhe diz nada?
Ele estava falando da outra cabeça,
raciocínio tortuoso que dizia que o outro deveria mudar o comportamento sexual
se quisesse agarrar as melancias.
OUTRO (pegando pelo lado do avesso) – tá me
chamando de ignorante?
UM (percebendo o perigo) – não, não, era
outra coisa.
OUTRO – faz tempo que estou percebendo essas
insinuações ...
UM (vendo-se em perigo) – não, cara, queisso,
você entendeu errado.
OUTRO – tá me chamando de idiota?
Começou a empurrar o UM, que estava do lado
da janela, deu-lhe um encontrão que doeu até em mim.
UM – pôrra, cara, que é que tá havendo? Essa
doeu.
OUTRO – é para doer mesmo.
Levantou o braço pra dar um tapão, UM
percebeu, baixou a cabeça, acertou num gordo parrudo da cadeira da frente.
Ó, vou te contar, nunca vi um cara tão grande
e tão ligeiro. Ele deu um pulo na cadeira, pisou na perna da mulher que estava
ao lado, ela reclamou com o marido, que se levantou da cadeira do outro lado do
corredor. O gordão deu um tabefe na cara do OUTRO, o marido sentou um murro no
gordão.
Apertei o fio de pedido de parada, o troço
tava crescendo, o motorista parou, eu desci rapidinho, não sei o que aconteceu,
o jornal noticiou que foram oito para a delegacia e seis pro hospital (fora os
machucados da delegacia, que só foram atendidos mais tarde).
O susto demorou um pouco a passar, não sou lá
nenhum valente.
Serra, quarta-feira, 24 de dezembro de 2014.
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