sábado, 22 de outubro de 2016


Retífica de Cabeçote

 

Estávamos quase chegando a Serra Sede, ali na virada do posto de gasolina onde tem aquela oficina de retífica de cabeçotes. Eu estava sentado à esquerda, mais para trás uns três pares de cadeiras, um deles reparou na oficina, pareciam grandes amigos, vinham desde a Audifax empurrando um ao outro com os ombros, fiquei pensando: é a dialética, muita alegria, vai dar briga.

UM – tá vendo?

OUTRO – o quê?

UM – retífica de cabeçote.

OUTRO – e daí?

UM (arqueou as sobrancelhas, apontou a cabeça para a direita como quem diz “olha lá”) – retífica de cabeçote ...

OUTRO – sei o que é, conserto de motor, sou caminhoneiro, tá lembrado, tamos indo buscar meu carro, por que estaríamos no ônibus?

UM (insistindo; acho que ele precisava retificar o Semancol) – cabeçote ... cabeça pequena.

OUTRO (não querendo perder a amizade) – o que você quer dizer com isso?

UM (não pegando a dica) – cabeçote, cabeça pequena, retífica, verbo retificar, corrigir.

OUTRO – você deveria ser menos esperto.

Eu tava gravando tudo com o celular, depois precisei depurar no computador, maravilha essas maquininhas, uma beleza.

UM (atolando no pântano das provocações) – retificar a pequena cabeça, isso não lhe diz nada?

Ele estava falando da outra cabeça, raciocínio tortuoso que dizia que o outro deveria mudar o comportamento sexual se quisesse agarrar as melancias.

OUTRO (pegando pelo lado do avesso) – tá me chamando de ignorante?

UM (percebendo o perigo) – não, não, era outra coisa.

OUTRO – faz tempo que estou percebendo essas insinuações ...

UM (vendo-se em perigo) – não, cara, queisso, você entendeu errado.

OUTRO – tá me chamando de idiota?

Começou a empurrar o UM, que estava do lado da janela, deu-lhe um encontrão que doeu até em mim.

UM – pôrra, cara, que é que tá havendo? Essa doeu.

OUTRO – é para doer mesmo.

Levantou o braço pra dar um tapão, UM percebeu, baixou a cabeça, acertou num gordo parrudo da cadeira da frente.

Ó, vou te contar, nunca vi um cara tão grande e tão ligeiro. Ele deu um pulo na cadeira, pisou na perna da mulher que estava ao lado, ela reclamou com o marido, que se levantou da cadeira do outro lado do corredor. O gordão deu um tabefe na cara do OUTRO, o marido sentou um murro no gordão.

Apertei o fio de pedido de parada, o troço tava crescendo, o motorista parou, eu desci rapidinho, não sei o que aconteceu, o jornal noticiou que foram oito para a delegacia e seis pro hospital (fora os machucados da delegacia, que só foram atendidos mais tarde).

O susto demorou um pouco a passar, não sou lá nenhum valente.

Serra, quarta-feira, 24 de dezembro de 2014.

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