Psicopautas
Era a enésima (ninguém tá contando essa
merda, não) reunião da ADA, Associação dos Doidões Anônimos, melhor não ficar dizendo
por aí senão passamos à ASKO (Associação dos Seriais Killers Ordinários), os
policiais vão ficar vigiando a gente.
O professor que dirigia os trabalhos estava
curado, ele que dizia, geeente, ele dizia que tava, se você quiser acreditar,
acredite, outro dia derrubou um poste de luz, foi por acaso, o carro que
trombou, dá pra acreditar?
PROFESSOR (com ligeira irritação arranhou a
perna direita toda, porque é destro) – pessoal, vamos organizar. As psicopatas
(e psicopatos também) vão pra esquerda, é a turma do PESSOAL (que ataca
indivíduos, famílias, grupos e empresas). A turma das sociopatas (e sociopatos
também) é a turma do AMBIENTAL (que ataca cidades-municípios, estados, nações,
mundo – não confundir com os governantes do Executivo, os políticos do
Legislativo, os juízes do Judiciário que competem na área) vai para direita,
dois semicírculos.
ENXERIDO ENTRADO AFOBADO – professor, é aqui
a sala do pessoal que taca fogo?
PROFESSOR – você quer dizer piromaníacos?
EXERIDO JÁ ACALMANDO – é, isso mesmo, tô
atrasado?
PROFESSOR (preocupado, vendo fósforos e
gasolina nas mãos dele) – não sei, mas é no prédio vizinho, aquele que não tem
comunicação com este. Vamos tentar começar essa bosta. Gente, ó, os psicopatas
em geral não podem ficar atacando os sociopatas, que estão calmos, estão longe
do ambiente deles. Melhor afastar os dois semicírculos. Isso, afasta seis
metros. Tô aqui com uma espingarda que eu tava levando para lubrificar, não
reparem, se alguém atravessar a linha atiro no pescoço.
UM DESCONHECIDO (aproveitando que o professor
tava distraído) – fala aí, doidão.
PROFESSOR – quem disse isso?
OUTRO IDIOTA QUE ERROU DE SALA – professor,
sádicos e masoquistas é aqui?
PROFESSOR – não, é oito salas mais pra
frente, com aquela besta do Amarildo, aquele cocô de anteontem. Já vi que esta
titica não vai começar, tá igual lá na Ação Entre Amigos, que saudades que eu
tenho, vou ter uma recaída, vou procurar a turma. Eu trouxe uma pauta de
trabalho.
Uma psicopata tinha dado um bofete noutra, o
marido revidou, começou uma briga, o professor colocou uma perna sobre a outra,
ficou apreciando, quebraram seis cadeiras, ele mandou o vigia ir buscar outras.
PROFESSOR – muito boa, mas lembrem-se de que
aqui não se trata de ter prazer com o dano, é tudo muito metódico, muito isento
de emoções, tudo controladíssimo, mas isso justamente nos lembra do que não
podemos fazer, não é gente?
SOCIOPATAS (indignados por não terem podido
participar, coisa pequena, nem dá pro gosto) – é ...
SOCIOPATA SEM IDENTIFICAÇÃO – tô doidinho para
sonegar, vou sair daqui, vou direto por escritório.
OUTRO SOCIOPATA – vou trabalhar no domingo lá
no escritório da prefeitura.
PROFESSOR – garotada e moçada, vocês vieram
aqui porque quiseram, são vocês que querem se curar, não sou eu, já estou
curado ...
Risos gerais.
PROFESSOR (olhando um por um) – quem riu?
QUASE TODOS (colocando a mão diante da boca)
– fomos nós.
PROFESSOR – e você, por que não riu?
UM QUALQUER – ele é surdo, professor.
PROFESSOR – e como ele vai ouvir?
OUTRO QUALQUER – não vai, né? Aí que está a graça
da coisa, ele sempre vai a todas, finge que está escutando, é igual a coruja,
não fala nada mas presta uma atenção ... É professor. E é surdo.
PROFESSOR – como pode ser professor? Ele
também não fala?
O MESMO – falar ele fala, mas não fala coisa
com coisa.
Serra, sexta-feira, 26 de dezembro de 2014.
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