sábado, 22 de outubro de 2016


Psicopautas

 

Era a enésima (ninguém tá contando essa merda, não) reunião da ADA, Associação dos Doidões Anônimos, melhor não ficar dizendo por aí senão passamos à ASKO (Associação dos Seriais Killers Ordinários), os policiais vão ficar vigiando a gente.

O professor que dirigia os trabalhos estava curado, ele que dizia, geeente, ele dizia que tava, se você quiser acreditar, acredite, outro dia derrubou um poste de luz, foi por acaso, o carro que trombou, dá pra acreditar?

PROFESSOR (com ligeira irritação arranhou a perna direita toda, porque é destro) – pessoal, vamos organizar. As psicopatas (e psicopatos também) vão pra esquerda, é a turma do PESSOAL (que ataca indivíduos, famílias, grupos e empresas). A turma das sociopatas (e sociopatos também) é a turma do AMBIENTAL (que ataca cidades-municípios, estados, nações, mundo – não confundir com os governantes do Executivo, os políticos do Legislativo, os juízes do Judiciário que competem na área) vai para direita, dois semicírculos.

ENXERIDO ENTRADO AFOBADO – professor, é aqui a sala do pessoal que taca fogo?

PROFESSOR – você quer dizer piromaníacos?

EXERIDO JÁ ACALMANDO – é, isso mesmo, tô atrasado?

PROFESSOR (preocupado, vendo fósforos e gasolina nas mãos dele) – não sei, mas é no prédio vizinho, aquele que não tem comunicação com este. Vamos tentar começar essa bosta. Gente, ó, os psicopatas em geral não podem ficar atacando os sociopatas, que estão calmos, estão longe do ambiente deles. Melhor afastar os dois semicírculos. Isso, afasta seis metros. Tô aqui com uma espingarda que eu tava levando para lubrificar, não reparem, se alguém atravessar a linha atiro no pescoço.

UM DESCONHECIDO (aproveitando que o professor tava distraído) – fala aí, doidão.

PROFESSOR – quem disse isso?

OUTRO IDIOTA QUE ERROU DE SALA – professor, sádicos e masoquistas é aqui?

PROFESSOR – não, é oito salas mais pra frente, com aquela besta do Amarildo, aquele cocô de anteontem. Já vi que esta titica não vai começar, tá igual lá na Ação Entre Amigos, que saudades que eu tenho, vou ter uma recaída, vou procurar a turma. Eu trouxe uma pauta de trabalho.

Uma psicopata tinha dado um bofete noutra, o marido revidou, começou uma briga, o professor colocou uma perna sobre a outra, ficou apreciando, quebraram seis cadeiras, ele mandou o vigia ir buscar outras.

PROFESSOR – muito boa, mas lembrem-se de que aqui não se trata de ter prazer com o dano, é tudo muito metódico, muito isento de emoções, tudo controladíssimo, mas isso justamente nos lembra do que não podemos fazer, não é gente?

SOCIOPATAS (indignados por não terem podido participar, coisa pequena, nem dá pro gosto) – é ...

SOCIOPATA SEM IDENTIFICAÇÃO – tô doidinho para sonegar, vou sair daqui, vou direto por escritório.

OUTRO SOCIOPATA – vou trabalhar no domingo lá no escritório da prefeitura.

PROFESSOR – garotada e moçada, vocês vieram aqui porque quiseram, são vocês que querem se curar, não sou eu, já estou curado ...

Risos gerais.

PROFESSOR (olhando um por um) – quem riu?

QUASE TODOS (colocando a mão diante da boca) – fomos nós.

PROFESSOR – e você, por que não riu?

UM QUALQUER – ele é surdo, professor.

PROFESSOR – e como ele vai ouvir?

OUTRO QUALQUER – não vai, né? Aí que está a graça da coisa, ele sempre vai a todas, finge que está escutando, é igual a coruja, não fala nada mas presta uma atenção ... É professor. E é surdo.

PROFESSOR – como pode ser professor? Ele também não fala?

O MESMO – falar ele fala, mas não fala coisa com coisa.

Serra, sexta-feira, 26 de dezembro de 2014.

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