Os Deuses e as
Doenças
Ela se aproximou por trás, ele estava
sentado-deitado num pufe DIVINO, divino mesmo que ela tinha comprado no
shopping center de Deus onde tinha de TUUUUDO, tudo mesmo, era maravilhoso,
deslumbrante. Gente diabólica ia lá no shopping, mas tudo bem.
Abraçou-o amorosamente, ele ficou todo
satisfeito.
O divino computador não tinha teclas,
nem nada, era só uma tela no ar, ele falava com a tela, ela escrevia.
ELA – que cê tá fazendo?
Que é que você pensa, de onde você
pensa que vem as gírias e as facilidades da língua? Tudo isso não é divino-diabólico?
ELE – diversão, diversão.
ELA – mamor [é “meu amor”], fala.
MAMOR – ah, mobem [é “meu bem”],
brincadeirinhas.
MOBEM (sentando às costas dele e
prestando atenção) – doenças, já vi tudo.
MAMOR – é, doenças.
MOBEM – aham (ela sabia que ele não
gostava e já fazia de propósito, ela era do departamento de implicâncias, tinha
desenvolvido técnicas totalmente novas para as atendentes de farmácia que se
inspiravam nela, quer dizer, ela colocava isso na cabeça delas).
MAMOR – você sabe que não gosto.
MOBEM – aham. Desculpe querido.
MAMOR – falou de novo.
MOBEM – aham. Desculpe, querido, é o
vício, vou tentar evitar (já sabendo que lá pra frente iria falar de novo).
MAMOR – peguei um cara aí, já tem quatro
anos.
MOBEM – tá de brincadeira! Quatro anos
num só, não é proibido?
MAMOR – é, é sim, mas estou me
preparando para as punições. E aquele seu amigo do departamento Sado-Masô?
MOBEM – vou falar com ele, tá nos
Estados Unidos.
MAMOR – quinze anos atrás ele torceu o
joelho, deslocou a patela, vivia se arrastando, um benzedor safado se
intrometeu, demorou para reverter, vou pular, depois volto. Depois teve uma dor
atroz na barriga, foi a um médico que mandou fazer ressonância, olhou e disse
que ele estava com gastrite, o fígado ligeiramente inchado, não era importante,
passou remédios (essa é a parte que gosto mais, interação medicamentosa, acho
que os médicos foram nossa melhor criação).
MOBEM – sem falar nos fiscais!
MAMOR – é, fiscais também, mas médico
é melhor. Aí ele foi a outro, que afirmou não ser a gastrite tão importante,
muito mais importante cuidar do fígado, outro remédio. Foi a um terceiro,
mandou fazer exames, disse que eram os rins, mais remédios.
MOBEM – nossa, três tipos!
MAMOR – fora os da operação do
coração, seis diferentes.
MOBEM – foi você?
MAMOR – foi, já te contei, coisa
antiga. Aquele baixinho safado de São Paulo atrapalhou.
MOBEM – ah, é, tô lembrando.
MAMOR – era para fotografar a barriga.
O exame deu proteinúria, excesso de proteínas, que veio de ele comer castanhas
em excesso, as castanhas recomendadas por aquele do fígado (mas não o excesso:
quando a gente tem o auxílio do cliente é melhor ainda). Foi a outro, que disse
não serem os rins, já era outra coisa, pâncreas, e tome remédio! Aí o sacana
lembrou que a mãe tinha tido pancreatite disparada por uma pizza gordurosa,
lembrou das castanhas, o biltre parou, melhorou, filho da puta.
MOBEM – ah, mamor, não ligue, é assim
mesmo, nem sempre há cooperação. Pensa que é toda atendente que perturba os
clientes?
MAMOR – ele lembrou de ler o primeiro
exame, estava escrito algo completamente diferente, nenhum dos médicos leu (ou fez
que não leu). Tinha refluxo, esofagite gástrica.
MOBEM – aham, você pegou um dos bons,
hem?
MAMOR (deixando passar) – tem mais. Um
dia chupou muita mexerica, deu uma dor danada no peito, ele pensou que era
infarto, foi ao hospital, a médica jovem sem fazer exame já foi querendo
internar para operação de emergência do coração, mandou fazer exames, não era,
foi por pouco, perdi essa. O filho de uma égua lembrou do refluxo, voltou pra
casa e tratou ele mesmo, evitando as coisas ácidas e assim por diante. É
difícil desse jeito.
MOBEM (ficando de lado para olhá-lo
nos olhos) – quando me pergunto por que casei com você, é nessas horas que me
lembro.
MAMOR (se fazendo de modesto) – cabou
não, cabou não!
MOBEM (adulando, pensando na caixa de
joias com os corais da Grande Barreira de Corais da Austrália, antes de começar
a poluição, 50 mil anos atrás) – tem mais???
MAMOR (todo satisfeito) – com o mesmo.
Aí torci o joelho dele de novo, ele foi se arrastando para o cachorro sair na
varanda, lembrou que o portão da garagem estava abrindo sozinho, o cachorro
poderia sair, foi ajoelhado até a escada, o portão tava fechado, voltou para
fechar a porta e ficar dentro de casa, VÁRIAS semanas de dor. Sarou isso,
peguei nas costelas, dor excruciante nas costas, na base mesmo, quase consegui
deslocamento, ele não conseguia nem se mexer, mais de mês e meio, atroz, atroz,
até eu fiquei com pena.
MOBEM – que é isso, mamor, você é mais
forte que isso.
MAMOR – sarou a coluna, preguei-lhe um
abcesso no cotovelo, quatro dias no hospital, foi de doer, literalmente.
MOBEM – aham, que lindo.
Ela sabia que estava abusando, mas
queria ver até onde ia.
MAMOR (deixando passar de novo, estava
feliz de mostrar as peripeças) – esse sou eu.
MOBEM (pensando nas férias em
Acapulco) – o maioral, o maioral, vou contar para todo mundo o que meu lindinho
fez.
MAMOR (modesto, querendo que ela
continuasse) – você acha que convém?
MOBEM (entrando na dele, pensando em
Nice no ano seguinte, eles iriam fazer coisas diabólicas naquele lugar, quem
sabe a atriz de Amélia Polaina passasse por lá) – com certeza, pode render
algum castigo por parte desses nossos chefes diabólicos, mas que fazer, é da
profissão.
MAMOR – ah, mobem, você faz de
propósito, para me adular.
MOBEM – é sim, é sim. Só teve isso?
Precisamos fazer uma reunião com nossos ini-amigos, eles vão urrar de inveja,
uma carne queimada na churrasqueira do inferno, beber Cambari, adoro a cor
vermelha dele, cachaça ruim queimando a garganta, Old Paraguay, vai ser o
máximo.
MAMOR – não, tem muito mais.
Serra, domingo, 21 de dezembro de
2014.
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