sexta-feira, 21 de outubro de 2016


Os Deuses e as Doenças

 

Ela se aproximou por trás, ele estava sentado-deitado num pufe DIVINO, divino mesmo que ela tinha comprado no shopping center de Deus onde tinha de TUUUUDO, tudo mesmo, era maravilhoso, deslumbrante. Gente diabólica ia lá no shopping, mas tudo bem.

Abraçou-o amorosamente, ele ficou todo satisfeito.

O divino computador não tinha teclas, nem nada, era só uma tela no ar, ele falava com a tela, ela escrevia.

ELA – que cê tá fazendo?

Que é que você pensa, de onde você pensa que vem as gírias e as facilidades da língua? Tudo isso não é divino-diabólico?

ELE – diversão, diversão.

ELA – mamor [é “meu amor”], fala.

MAMOR – ah, mobem [é “meu bem”], brincadeirinhas.

MOBEM (sentando às costas dele e prestando atenção) – doenças, já vi tudo.

MAMOR – é, doenças.

MOBEM – aham (ela sabia que ele não gostava e já fazia de propósito, ela era do departamento de implicâncias, tinha desenvolvido técnicas totalmente novas para as atendentes de farmácia que se inspiravam nela, quer dizer, ela colocava isso na cabeça delas).

MAMOR – você sabe que não gosto.

MOBEM – aham. Desculpe querido.

MAMOR – falou de novo.

MOBEM – aham. Desculpe, querido, é o vício, vou tentar evitar (já sabendo que lá pra frente iria falar de novo).

MAMOR – peguei um cara aí, já tem quatro anos.

MOBEM – tá de brincadeira! Quatro anos num só, não é proibido?

MAMOR – é, é sim, mas estou me preparando para as punições. E aquele seu amigo do departamento Sado-Masô?

MOBEM – vou falar com ele, tá nos Estados Unidos.

MAMOR – quinze anos atrás ele torceu o joelho, deslocou a patela, vivia se arrastando, um benzedor safado se intrometeu, demorou para reverter, vou pular, depois volto. Depois teve uma dor atroz na barriga, foi a um médico que mandou fazer ressonância, olhou e disse que ele estava com gastrite, o fígado ligeiramente inchado, não era importante, passou remédios (essa é a parte que gosto mais, interação medicamentosa, acho que os médicos foram nossa melhor criação).

MOBEM – sem falar nos fiscais!

MAMOR – é, fiscais também, mas médico é melhor. Aí ele foi a outro, que afirmou não ser a gastrite tão importante, muito mais importante cuidar do fígado, outro remédio. Foi a um terceiro, mandou fazer exames, disse que eram os rins, mais remédios.

MOBEM – nossa, três tipos!

MAMOR – fora os da operação do coração, seis diferentes.

MOBEM – foi você?

MAMOR – foi, já te contei, coisa antiga. Aquele baixinho safado de São Paulo atrapalhou.

MOBEM – ah, é, tô lembrando.

MAMOR – era para fotografar a barriga. O exame deu proteinúria, excesso de proteínas, que veio de ele comer castanhas em excesso, as castanhas recomendadas por aquele do fígado (mas não o excesso: quando a gente tem o auxílio do cliente é melhor ainda). Foi a outro, que disse não serem os rins, já era outra coisa, pâncreas, e tome remédio! Aí o sacana lembrou que a mãe tinha tido pancreatite disparada por uma pizza gordurosa, lembrou das castanhas, o biltre parou, melhorou, filho da puta.

MOBEM – ah, mamor, não ligue, é assim mesmo, nem sempre há cooperação. Pensa que é toda atendente que perturba os clientes?

MAMOR – ele lembrou de ler o primeiro exame, estava escrito algo completamente diferente, nenhum dos médicos leu (ou fez que não leu). Tinha refluxo, esofagite gástrica.

MOBEM – aham, você pegou um dos bons, hem?

MAMOR (deixando passar) – tem mais. Um dia chupou muita mexerica, deu uma dor danada no peito, ele pensou que era infarto, foi ao hospital, a médica jovem sem fazer exame já foi querendo internar para operação de emergência do coração, mandou fazer exames, não era, foi por pouco, perdi essa. O filho de uma égua lembrou do refluxo, voltou pra casa e tratou ele mesmo, evitando as coisas ácidas e assim por diante. É difícil desse jeito.

MOBEM (ficando de lado para olhá-lo nos olhos) – quando me pergunto por que casei com você, é nessas horas que me lembro.

MAMOR (se fazendo de modesto) – cabou não, cabou não!

MOBEM (adulando, pensando na caixa de joias com os corais da Grande Barreira de Corais da Austrália, antes de começar a poluição, 50 mil anos atrás) – tem mais???

MAMOR (todo satisfeito) – com o mesmo. Aí torci o joelho dele de novo, ele foi se arrastando para o cachorro sair na varanda, lembrou que o portão da garagem estava abrindo sozinho, o cachorro poderia sair, foi ajoelhado até a escada, o portão tava fechado, voltou para fechar a porta e ficar dentro de casa, VÁRIAS semanas de dor. Sarou isso, peguei nas costelas, dor excruciante nas costas, na base mesmo, quase consegui deslocamento, ele não conseguia nem se mexer, mais de mês e meio, atroz, atroz, até eu fiquei com pena.

MOBEM – que é isso, mamor, você é mais forte que isso.

MAMOR – sarou a coluna, preguei-lhe um abcesso no cotovelo, quatro dias no hospital, foi de doer, literalmente.

MOBEM – aham, que lindo.

Ela sabia que estava abusando, mas queria ver até onde ia.

MAMOR (deixando passar de novo, estava feliz de mostrar as peripeças) – esse sou eu.

MOBEM (pensando nas férias em Acapulco) – o maioral, o maioral, vou contar para todo mundo o que meu lindinho fez.

MAMOR (modesto, querendo que ela continuasse) – você acha que convém?

MOBEM (entrando na dele, pensando em Nice no ano seguinte, eles iriam fazer coisas diabólicas naquele lugar, quem sabe a atriz de Amélia Polaina passasse por lá) – com certeza, pode render algum castigo por parte desses nossos chefes diabólicos, mas que fazer, é da profissão.

MAMOR – ah, mobem, você faz de propósito, para me adular.

MOBEM – é sim, é sim. Só teve isso? Precisamos fazer uma reunião com nossos ini-amigos, eles vão urrar de inveja, uma carne queimada na churrasqueira do inferno, beber Cambari, adoro a cor vermelha dele, cachaça ruim queimando a garganta, Old Paraguay, vai ser o máximo.

MAMOR – não, tem muito mais.

Serra, domingo, 21 de dezembro de 2014.

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