Loja Sadomasô
A mesma loja vendia para os sádicos (e
sádicas) e os masoquistas (e as masoquistas), mas começou a haver muita
confusão, de modo que os proprietários (a sádica e o masoquista, casamento
ideal; ele dizia: “me bate, me bate”; e ela: “nãããoooo”) pediram ajuda da tropa
de choque, que veio com aqueles escudos e cassetetes (“bater na testa”, no
francês), ficando entre ambos os grupos, fila indiana.
Os e as masoquistas se adiantavam, uma
arrancou os botões da blusa num repelão, pulou na frente e disse:
- Bate se você é homem.
Um masoquista botou a cabeça no ombro
dela e ajuntou:
- Vem, vem.
O cabra, motoqueiro todo tatuado nos
braços, nas pernas, na cabeça, no pescoço, no peito que a camisa e o blusão de
couro abertos mostravam, realmente avançou e tentou saltar por sobre a fileira
de guardas.
Foi a conta.
O policial deu uma coronhada só, o
sujeito desmaiou.
- Bate em mim, seu guarda.
- Não, seu guarda, bate em mim.
Os amigos do desmaiado queriam
vingança, foi uma barafunda só, os sádicos e as sádicas sopapeando os
policiais, que davam com os escudos nos queixos e com os cassetetes nas cabeças
e nos rins, pra doer mesmo.
Os e as masoquistas ficaram
consternados.
- NÃO, SEUS GUARDAS, batam na gente,
não neles. Neles, não, podem se juntar vocês e eles para bater em nós, nós
merecemos, somos adultos maus, nós merecemos apanhar. Dêem duro em nós. Por quê
só pra eles?
Alguns choravam.
Um guarda fez que ia bater neles, mas
em cima o sargento falou:
- Cabo, comporte-se, o tenente tá lá
de fora olhando tudo.
- Desculpe, sargento.
Os e as masoquistas se desesperavam.
- Deixe ele vir, sargento, nós aguentamos.
Bate, seu guarda, bate com força, não precisa segurar o braço, bordoada mesmo.
Pancadaria.
Os guardas e os sádicos e as sádicas
estavam engalfinhados.
- Droga, se eu soubesse tinha vindo de
sádico, né amor?
- É, querido (eram o masoquista e a
masoquista, casamento fracassado, precisavam de energia de fora).
Eles desesperavam.
- Que desperdício, que desperdício.
Uns tentavam ir pra junto da quizumba,
porém os guardas estavam bloqueando para trás com os escudos, enquanto batiam
para frente, levando porrada também, o troço tava feito.
- Não, seu guarda, desse lado de cá,
bate na gente.
Tava cada vez mais embolado, tava
triste mesmo, a pancadaria tava feia, um guarda caiu, depois outros, sádicos e
sádicas caíram também, tava igual embolação de campo de futebol americano,
ninguém sabia mais quem era quem, todo mundo batia em todo mundo, só os e as
masoquistas não conseguiam entrar no bolo.
- Isso é que é injustiça.
Os e as masoquistas ajoelhavam e
rezavam.
- Meu Deus, deixe eles baterem na
gente.
Mais guardas vinham e se jogavam no
bololô.
O tenente veio e se jogou no grupão,
que chegava quase no teto.
- Cabo, vai chamar o capitão, que essa
ele não pode perder.
A loja tava quase toda destruída, o
casal proprietário vibrava: iêba!
Serra, sexta-feira, 19 de julho de
2013.
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