quinta-feira, 20 de outubro de 2016


Listas de Natal

 

Papai Noel (no Brasil) ou Pai Natal (em Portugal) estava encontrando algumas dificuldades para fazer a distribuição de final de ano, noite de 24 para 25 de dezembro, Natal, que era a comemoração do nascimento de Cristo, Jesus Cristo, nosso salvador, você se lembra? Agora é o consumismo que manda. Estava até pensando em contratar o FedEx ou o que fosse, quem sabe os Correios se as pessoas não se incomodassem com atrasos que poderiam durar semanas.

Não era confusão com a GPPN, Gente Pequena do Polo Norte (como ficou sendo chamada depois das FNPC, Festas Natalinas Politicamente Corretas), de jeito nenhum. Aquela era gente ordeira e trabalhadora que ficava preparando os presentes o ano todo para um dia de felicidade somente. Eles vibravam, claro, pessoal da mais elevada competência, eficiente, tarimbada, veterana, calejada e todo adjetivo que você puder achar no Word.

Não, de maneira nenhuma, nem pensar!

Nas obras de Tolkien, ele sempre colocou os anões como gente extremamente trabalhadora, devotada, constante, fiel.

A questão toda, vamos dizer, era com as renas.

Enquanto papai Noel estava na roda ele foi falando.

Ficavam de folga o ano todo, só trabalhavam um dia e ficavam botando banca, entraram em greve, pronto, eu disse. Em greve, sim, sem dúvida, greve, isso mesmo, dói falar, mas greve, inequivocamente greve, uma beleza. Fizeram movimento paredista (isso é outra coisa estranha, movimento de parar), as renas eram todas sindicalizadas, uma semana antes do Natal começaram a reclamar disso e daquilo, tinham de pedalar milhares de quilômetros, milhões se contar o mundo inteiro e numa velocidade absurda.

Quando Papai Noel saiu, a coisa mudou de figura.

Pedalando, pedalando, pedalando, papai só refestelado com aquele bundão gordo dele, vou te contar, o que aquele velho faz eu não sei. “Supervisionando os anões”, ele diz. Não sei como. Mete a bunda na cadeira macia, coloca uma almofada debaixo, fica no computador vendo mulher pelada, não sei que trabalho é esse. Diz que responde as cartas, não sei, é o que ele diz.

É greve, é greve, é greve, uêba.

Sou do SINDIRENA Sindicato das Renas, renas unidas jamais serão vencidas. Não é somente pedalar, é a tensão nervosa dos prazos, de ter de entregar tudo em 12 horas. Bem, se a gente pensar que a noite vai avançando, são 24 horas, tá certo, mas tem de cumprir: e os Direitos Trabalhistas? Traba-listas: trabalho noturno deve ser pago em dobro. O regime constitucional diz que não podem ser mais que seis horas direto, temos que negociar, pegar o velho na ladeira e dar uma corrida nele.

Bom, as crianças ...é, tem as crianças.

Bem, as crianças, isso pega um pouco, engastalha, mas sempre tem efeitos colaterais nas guerras, alguém sofre um pouco. É, um ano esperando, tentando fazer tudo certo. Tem isso. Não podemos nos ater a essa dificuldadezinha, senão a gente para, não prossegue.

Agora, há que lembrar também que a jornada nessa única noite longa de 24 horas é ininterrupta, continuada, 24 HORAS, sem parar pra nada mesmo, nem para urinar, nem para beber água, nem um lanchinho pode. Você pode ficar com pena do “pobre velhinho”, mas ele é um explorador, não vê os anões?

UM LÁ – êpa! GPPN.

É, tem isso, a GPPN é explorada, superexplorada.

OUTRO LÁ – ei, deixe a gente de fora, temos um acordo, vai cuidar da sua turma, seu chifrudo.

Com muito orgulho, são chifres naturais.

Então, a gente vai ter essa pauta, as Listas de Natal, As Leis Trabalhistas aplicadas e esse indecente que se chama “Papai”. Já pensou que as alturas em que elas circulam são enregelantes? Para as grandes velocidades, alturas suborbitais geladíssimas, mais gelado que o Polo Norte muita coisa.

Tudo isso tem de ser pensado.

Se depender de mim esse velho safado não escapa. E nem adianta a GPPN fica babando, defendendo o crápula.

Nisso Papai Noel volta, abraçado com duas renas.

RENA 1 – ei, escute, enquanto você tava falando nós com conversamos com Papai Noel, ele explicou umas coisas pra gente, acho que a gente vai desistir.

Desistir, desistir? De jeito nenhum. Só por cima do meu cadáver.

RENA 2 – gente, ei, gente, ele disse que só vai deixar de ter greve por cima do cadáver dele.

@@@

Naquela solidão gelada do Polo Norte não foi a melhor coisa a dizer.
Serra, terça-feira, 23 de dezembro de 2014.

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