Vevê
Essas coisas só acontecem comigo.
Já contei aquela do bar, essa foi
outra.
Sábado de tarde, já tínhamos feito as
compras de supermercado, a mulher tinha me alugado a manhã toda, os filhos,
aquilo tudo, três horas da tarde eu estava livre de tudo, fui pro bar, sentei
bem no sol, onde não tinha toldo, para esquentar mesmo, fiquei ali um tempo, só
aí pedi a cerveja geladérrima, a ponto de pocar (não poderia, quando gela
contrai, e não poderia descer abaixo de quatro graus célsius, porque aí começa
a expandir).
Tô ali, achando tudo bom, aquele
solão, a fresca do vento, de frente para areia e o mar, “beira do mar, todo mar
é um, começo do caminhar”, “o barquinho vai, a tardinha cai”, aquela coisa gostosa,
céu azulão de brigadeiro sem uma nuvem, nada para estragar, o cara do lado
puxou assunto, se convidou para sentar, veio e sentou mesmo sem eu conseguir
falar nem um A.
INTRUSO – oi, sou Amilton, como vai.
Tudo bem?
WALTER – tudo, tava tudo bem. Walter.
AMILTON – oi, Walter, tou procurando
sócio.
WALTER – em bar?
AMILTON – é o melhor lugar. As pessoas
bebem, ficam soltinhas, ultrapassam as barreiras do ego, chegam ao id, soltam
tudo, maciinhas como filé mignon.
WALTER – nunca tinha pensado assim.
AMILTON – pensar é comigo mesmo. Quer
ver?
WALTER (fazendo cara de quem não
gostou) – quero, né?
AMILTON – é um conceito, o Vevê, VV, Valor
da Vizinhança.
WALTER – que isso?
AMILTON – pense assim, pense numa casa
qualquer: você vê preço, vê se tem farmácia, supermercado, casa de loteria, padaria,
várias coisas assim.
WALTER – bar legal.
AMILTON (o outro não notou ou se fez
de desentendido) – isso, bar legal, com gente legal.
WALTER – é.
AMILTON – então. As mulheres vão
reparar se tem cabelereiro, shopping center, você vai ver se ter oficina um
pouco mais longe, mas nem tanto, vai ver se ter lavadores de carro sem
flanelinha, se tem polícia.
WALTER – é, polícia.
AMILTON – só não olha o Vevê.
WALTER (esperando a explicação) – diz
aí.
AMILTON – então, o Vevê, valor da
vizinhança. Às vezes você olha só o preço e aquelas coisas, esquece dos
vizinhos, se são gente boa. Pode ser que o preço de uma casa seja 300 mil, o de
outra 800 mil, a tentação é a de menor valor, mas você não pensa que a
diferença foi acumulada historicamente, quer dizer, não tem lixo nas ruas, há
mais respeito, não há bandidos, o pessoal é prestimoso, escolas melhores,
atendimento melhor nos consultórios.
WALTER – lá isso é.
AMILTON – então. Na ganância dos 500
de diferença você embarca no mais barato e o barato sai caro, como dizem.
WALTER – um primo entrou nessa, se
lascou todinho, eu já não gostava dele, a mulher que insistiu em solidariedade,
essas merdas.
AMILTON – então. No lugar mais caro
você tem as vantagens do encarecimento, todo o aprendizado histórico, o acúmulo
de cidadania, a bondade das velhas e confiáveis vizinhanças, árvores grandes de
sombra, tudo de bom; não há enchente, não há casos de polícia. 1.300, se você
puder pagar, tudo ali é ainda melhor.
WALTER – você tem alguma razão. Lá em
volta de nós o pessoal todo é bom, fora um ou outro.
AMILTON – então. Se a gente, além de
apontar todas aquelas coisas que já consideramos necessárias, pudéssemos
mensurar o VV, seria quente, né?
WALTER – é ...seria, de fato.
AMILTON – então, está disposto?
WALTER – ah, não, acho que não.
Conversaram mais um tempo, o outro foi
embora decepcionado, finalmente o Walter se viu livre do chato e pôde usufruir
o resto do sábado. Ficou ali até de noitinha, foi pra casa feliz.
Chegou em casa contou o caso pra
mulher.
WALTER – isso só acontece comigo, não
dou sorte mesmo.
Serra, segunda-feira, 22 de dezembro
de 2014.
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