sábado, 22 de outubro de 2016


Vevê

 

Essas coisas só acontecem comigo.

Já contei aquela do bar, essa foi outra.

Sábado de tarde, já tínhamos feito as compras de supermercado, a mulher tinha me alugado a manhã toda, os filhos, aquilo tudo, três horas da tarde eu estava livre de tudo, fui pro bar, sentei bem no sol, onde não tinha toldo, para esquentar mesmo, fiquei ali um tempo, só aí pedi a cerveja geladérrima, a ponto de pocar (não poderia, quando gela contrai, e não poderia descer abaixo de quatro graus célsius, porque aí começa a expandir).

Tô ali, achando tudo bom, aquele solão, a fresca do vento, de frente para areia e o mar, “beira do mar, todo mar é um, começo do caminhar”, “o barquinho vai, a tardinha cai”, aquela coisa gostosa, céu azulão de brigadeiro sem uma nuvem, nada para estragar, o cara do lado puxou assunto, se convidou para sentar, veio e sentou mesmo sem eu conseguir falar nem um A.

INTRUSO – oi, sou Amilton, como vai. Tudo bem?

WALTER – tudo, tava tudo bem. Walter.

AMILTON – oi, Walter, tou procurando sócio.

WALTER – em bar?

AMILTON – é o melhor lugar. As pessoas bebem, ficam soltinhas, ultrapassam as barreiras do ego, chegam ao id, soltam tudo, maciinhas como filé mignon.

WALTER – nunca tinha pensado assim.

AMILTON – pensar é comigo mesmo. Quer ver?

WALTER (fazendo cara de quem não gostou) – quero, né?

AMILTON – é um conceito, o Vevê, VV, Valor da Vizinhança.

WALTER – que isso?

AMILTON – pense assim, pense numa casa qualquer: você vê preço, vê se tem farmácia, supermercado, casa de loteria, padaria, várias coisas assim.

WALTER – bar legal.

AMILTON (o outro não notou ou se fez de desentendido) – isso, bar legal, com gente legal.

WALTER – é.

AMILTON – então. As mulheres vão reparar se tem cabelereiro, shopping center, você vai ver se ter oficina um pouco mais longe, mas nem tanto, vai ver se ter lavadores de carro sem flanelinha, se tem polícia.

WALTER – é, polícia.

AMILTON – só não olha o Vevê.

WALTER (esperando a explicação) – diz aí.

AMILTON – então, o Vevê, valor da vizinhança. Às vezes você olha só o preço e aquelas coisas, esquece dos vizinhos, se são gente boa. Pode ser que o preço de uma casa seja 300 mil, o de outra 800 mil, a tentação é a de menor valor, mas você não pensa que a diferença foi acumulada historicamente, quer dizer, não tem lixo nas ruas, há mais respeito, não há bandidos, o pessoal é prestimoso, escolas melhores, atendimento melhor nos consultórios.

WALTER – lá isso é.

AMILTON – então. Na ganância dos 500 de diferença você embarca no mais barato e o barato sai caro, como dizem.

WALTER – um primo entrou nessa, se lascou todinho, eu já não gostava dele, a mulher que insistiu em solidariedade, essas merdas.

AMILTON – então. No lugar mais caro você tem as vantagens do encarecimento, todo o aprendizado histórico, o acúmulo de cidadania, a bondade das velhas e confiáveis vizinhanças, árvores grandes de sombra, tudo de bom; não há enchente, não há casos de polícia. 1.300, se você puder pagar, tudo ali é ainda melhor.

WALTER – você tem alguma razão. Lá em volta de nós o pessoal todo é bom, fora um ou outro.

AMILTON – então. Se a gente, além de apontar todas aquelas coisas que já consideramos necessárias, pudéssemos mensurar o VV, seria quente, né?

WALTER – é ...seria, de fato.

AMILTON – então, está disposto?

WALTER – ah, não, acho que não.

Conversaram mais um tempo, o outro foi embora decepcionado, finalmente o Walter se viu livre do chato e pôde usufruir o resto do sábado. Ficou ali até de noitinha, foi pra casa feliz.

Chegou em casa contou o caso pra mulher.

WALTER – isso só acontece comigo, não dou sorte mesmo.

Serra, segunda-feira, 22 de dezembro de 2014.

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