sábado, 22 de outubro de 2016


Vampirados

 

O vampsicólogo era bom. MUIIIIITO bom, pois tirava sangue dos próprios vampiros, ele sangrava todo mundo - primeiro que a hora dele tinha 50 minutos, depois cobrava em dólar, que só fazia valorizar, depois a pessoa ficava sentada de costas pra ele, que ficava fazendo caretas.

Coisas assim.

Pior que ter amigo que foi pra política: “você é amigo de fulano?”

Os vampirados vinham em bando consultar.

Vinham como morcegos, tipo funcionários públicos, e ficavam pendurados de cabeça pra baixo no galho diante do consultório no terceiro andar, entrando um por um, entravam como morcego, saíam como gente-morcego.

VAMPIRADO – aê, doutor, como vão as coisas?

VAMPSICÓLOGO (ele tinha feito supletivo, depois estudara em cursinho público pro ENEM, depois se candidatara nas cotas, por ser negro, depois fez cursinho para o vestibular, passou, fingiu que era surdo para usar aparelho, os comparsas faziam a prova fora e passavam pra ele) – tão manera, mano, tão em riba. Falou os mantras que ensinei?

VAMPIRADO (meio aéreo) – quais? Tô meio devagar, doutor, tô chupando uns sangue de drogado, sangue de funk, sangue de operário subnutrido (eles alegam como desculpa que o dinheiro não dá pra comprar carne), tô tontinho, não consigo nem lembrar quando o Flamengo ganhou um título, meu vermelho e negro querido do coração.

VAMPSICÓLOGO (puxa a cadeira para perto do encosto vãfreudiano) – o Flamengo não ganhou ano passado?

VAMPIRADO - acho que não, ganhou?

VAMPSICÓLOGO – não sei, ganhou?

VAMPIRADO – acho que não, ganhou?

VAMPSICÓLOGO – tô por fora, ganhou?

VAMPIRADO – também tô, ganhou?

VAMPSICÓLOGO – agora eu que tô tonto, vamos tentar outro assunto. O que você acha dos políticos brasileiros?

VAMPIRADO – os manos sabem fazer as coisas, a concorrência com eles é braba.

VAMPSICÓLOGO – falou os mantras ou não?

VAMPIRADO – desculpe, doutor, perdi o caderninho.

VAMPSICÓLOGO (olhando o relógio) – já deu a hora de 50.

VAMPIRADO – foram só 45, tô marcando.

VAMPSICÓLOGO – nã, nã, nã, demorou cinco minutos para a transformação, não atendo morcego, só atendo gente.

VAMPIRADO – poxa, doutor.

VAMPSICÓLOGO – poxa, nada, vá chupar sangue de outro.

Serra, sexta-feira, 09 de agosto de 2013.

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