sábado, 22 de outubro de 2016


Side By Side

 

- E aí, sujeito?

- Quanto tempo você não dava as caras.

- Quiéque tá rolando?

- O mesmo de sempre, as mesmas paradinhas, coisas que você já sabe.

- E papai e mamãe? Como eles estão?

- Tão bem, você não aparece lá em casa.

- Fiquei com vergonha, depois daquela aprontada.

- Que isso? Pai e mãe é tudo igual, fica com raiva um instantinho, depois perdoa, aquela coisa de “vai chupar prego de coco”.

- Essa é velha, mas ainda funciona. Como cê tá levando?

- Sem você por perto tá mais difícil, sem a sua ajuda fica tudo mais complicado, você tinha umas tiradas legais. Já sei, “você precisa ver as minhas colocadas”.

- É, tava na ponta da língua. Agora que tamos conversando, posso te dizer que pensei umas coisas bacanas mesmo, não é para me gabar.

- Gabar, gabar, queisso, mano, não você, né, você que sempre fez as coisas e eu que levei a fama de esperto, tenho até que agradecer.

- Queisso, meu querido, pra que que serve sermos assim um com o outro? Tá bem que fiquei sem aparecer um tempo, tô de volta, meu querido.

- Lembra daquela vez que saímos com a mesma garota, ela ficou pinel, piradinha, pirou o cabeção, deu parafuso: “nossa, hoje você tá com voz grossa”. Ela não sabia qual era um qual era outro: “tô resfriado”. Você é um palhaço.

- Há, há, há, foi demais, mesmo. Beijinhos, beijinhos, eu dava uns de língua, ela “Rui, cê tá beijando diferente...”

- É, depois não repetia ela dizia: “e aquele beijo de língua bem lá dentro?” Faz tempo, 17 anos que não voltam mais.

- É, dá saudades. Tudo é fase. Você tá bebendo pouco.

- Pouco?

- É, pra mim isso é pouco.

- O lance é que você quer beber demais, fico tonto, não aguento. E você sabe que não pode beber muito, fica doidão e eu que pago, daquela vez com papai e mamãe foi a mesma coisa, deu escândalo, eu que levei bronca.

- Foi injustiça, você não tinha nada com a coisa, eu que exagerei, prometi não fazer mais e não faço, esse tempo que fiquei escondido tava me curando.

- Então, pra que beber muito?

- Não chega a ser muito, é que você bebe bem pouquinho, um tico a mais.

- Não, você prometeu.

- É. Não queria apoteose na minha volta, mas pelo menos uns aplausos para a sua consciência mais esperta eu merecia.

Rui aplaude.

O garçom volta com a moqueca de cação, a pimenta e a cerveja.

GARÇOM – moço, pra que os dois copos, dois pratos, dois conjuntos de talheres? Vai chegar alguém? O senhor tava falando com duas vozes, é dublador?

RUI – Não, estava falando sozinho, esquesitices minhas, não esquenta.

Serra, sábado, 27 de dezembro de 2014.

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