Side By Side
- E aí, sujeito?
- Quanto tempo você não dava as caras.
- Quiéque tá rolando?
- O mesmo de sempre, as mesmas paradinhas,
coisas que você já sabe.
- E papai e mamãe? Como eles estão?
- Tão bem, você não aparece lá em casa.
- Fiquei com vergonha, depois daquela
aprontada.
- Que isso? Pai e mãe é tudo igual, fica com
raiva um instantinho, depois perdoa, aquela coisa de “vai chupar prego de
coco”.
- Essa é velha, mas ainda funciona. Como cê
tá levando?
- Sem você por perto tá mais difícil, sem a
sua ajuda fica tudo mais complicado, você tinha umas tiradas legais. Já sei,
“você precisa ver as minhas colocadas”.
- É, tava na ponta da língua. Agora que tamos
conversando, posso te dizer que pensei umas coisas bacanas mesmo, não é para me
gabar.
- Gabar, gabar, queisso, mano, não você, né,
você que sempre fez as coisas e eu que levei a fama de esperto, tenho até que
agradecer.
- Queisso, meu querido, pra que que serve
sermos assim um com o outro? Tá bem que fiquei sem aparecer um tempo, tô de
volta, meu querido.
- Lembra daquela vez que saímos com a mesma
garota, ela ficou pinel, piradinha, pirou o cabeção, deu parafuso: “nossa, hoje
você tá com voz grossa”. Ela não sabia qual era um qual era outro: “tô
resfriado”. Você é um palhaço.
- Há, há, há, foi demais, mesmo. Beijinhos,
beijinhos, eu dava uns de língua, ela “Rui, cê tá beijando diferente...”
- É, depois não repetia ela dizia: “e aquele
beijo de língua bem lá dentro?” Faz tempo, 17 anos que não voltam mais.
- É, dá saudades. Tudo é fase. Você tá
bebendo pouco.
- Pouco?
- É, pra mim isso é pouco.
- O lance é que você quer beber demais, fico
tonto, não aguento. E você sabe que não pode beber muito, fica doidão e eu que
pago, daquela vez com papai e mamãe foi a mesma coisa, deu escândalo, eu que levei
bronca.
- Foi injustiça, você não tinha nada com a
coisa, eu que exagerei, prometi não fazer mais e não faço, esse tempo que
fiquei escondido tava me curando.
- Então, pra que beber muito?
- Não chega a ser muito, é que você bebe bem
pouquinho, um tico a mais.
- Não, você prometeu.
- É. Não queria apoteose na minha volta, mas
pelo menos uns aplausos para a sua consciência mais esperta eu merecia.
Rui aplaude.
O garçom volta com a moqueca de cação, a
pimenta e a cerveja.
GARÇOM – moço, pra que os dois copos, dois
pratos, dois conjuntos de talheres? Vai chegar alguém? O senhor tava falando
com duas vozes, é dublador?
RUI – Não, estava falando sozinho,
esquesitices minhas, não esquenta.
Serra, sábado, 27 de dezembro de 2014.
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