Se Essa Rua, Se Essa
Rua Fosse Minha ...
A
MINHA RUA
|
Se
Essa Rua Fosse Minha
Se essa rua
Se essa rua fosse minha Eu mandava Eu mandava ladrilhar Com pedrinhas Com pedrinhas de brilhante Para o meu Para o meu amor passar
Nessa rua
Nessa rua tem um bosque Que se chama Que se chama solidão Dentro dele Dentro dele mora um anjo Que roubou Que roubou meu coração
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração Tu roubaste Tu roubaste o meu também Se eu roubei Se eu roubei teu coração É porque É porque te quero bem |
Peguei só um pedacinho como título
ilustrativo para contar esse caso aqui do meu bairro, quem me contou foi o
gari, dou café e um pão de manhã para ele, conversamos, ficamos amigos.
O cara ia com o cachorrinho dele, saía bem
cedo para não perturbar ninguém nem ser perturbado, depois de 5:30 o Sol do
horário de verão já estava expulsando os ladrões e ninguém tinha acordado
ainda. Esse meu amigo, que não vou falar o nome, saía cedo também, nesse dia
estava a uns 50 metros do cara, que passeava na rua, nem era na calçada, se
fosse na calçada implicavam com ele.
Estava com o cachorrinho fazendo cocô na rua,
ele tinha desistindo de levar saco plástico para colher porque no começo fizera
e o pessoal ficara olhando de banda, “ó o otário” (o gari também papeava com
ele, aliás, papeava com todo mundo, aqui pra nós acho que ele mais papeava que
trabalhava, cala-te boca).
Bem, continuando.
Fiz uma pausa aqui só para encaixar as
coisas.
Então, esse cara tava lá, o cachorro cagando
na rua, justamente para não ser na calçada.
Apareceu outro cara na casa defronte, segundo
andar.
CARA II – ei, que você tá fazendo? Seu
cachorro tá cagando na minha calçada?
CARA I (com toda educação) – não, não, é na
rua.
CARA II – daqui tá parecendo na calçada.
CARA I – mas daqui estou vendo que não.
CARA II – ah, malcriado, né?
CARA I – não, de modo nenhum.
CARA II – tá me chamando de mentiroso e ainda
por cima me desdizendo, né?
CARA I – não, senhor, de maneira nenhuma, o
senhor pode apenas estar enganado.
CARA II – enganado o caralho!
MULHER LÁ DE TRÁS – que é, bem? Deixe esse
otário pra lá. Você vai se estressar por causa de um bosta?
Vai surgindo um sujeito com cara de
mal-humorado do caramba, parecia que a noite não tinha rendido. Foi chegando e
encostou. Ficou olhando.
CARA II – é você que traz esse pedaço de cocô
para cagar todo dia na nossa calçada.
CARA I – não senhor, eu vario bastante, vou
pra esquerda, pra direita, pros fundos, pra frente, certamente é outro.
SUJEITO (se metendo onde não foi chamado) –
que é que tá pegando, hem? Em primeiro lugar a calçada não é sua, porisso que é
chamada de “passeio público”, é do povo, entendeu?
CARA II – vai se meter na sua vida.
SUJEITO – para seu governo, eu conheço esse
senhor, soube que ele ganha bastante, 1/3 do salário grande dele vai nos
impostos que sustentam a rua e a calçada, que não é sua, seu sebento. Ele é
promotor de justiça.
CARA II (botando o galho dentro) – ah,
promotor!?
SUJEITO – é, seu perebento, desce aqui que
nós vamos conversar.
A mulher vem chegando, encosta no parapeito,
dá as caras, o marido explica o lance, ela: “ah, é?”
SUJEITO – vem aqui, seu bunda mole. E eu
conheço essa bisca que é sua esposa.
O gari se aproximou e encostou, não perderia
aquilo por nada. Foi juntando mais gente, Cara I aproveitou para se afastar um
pouco. Sujeito explicava para quem vinha depois, todo mundo foi ficando
indignado.
SUJEITO – eu te conheço, seu animal, vou te
pegar na rua.
CARA II (querendo escapulir) – oh, vocês
desculpem, vou ter de me preparar para passear na praia.
SUJEITO II – é, desce, passa aqui que nós
vamos te cubar na porrada, seu safado que fica implicando com quem tá quieto.
Nós conhecemos o doutor aqui (olhou para ver, mas o doutor tinha ido
devagarzinho embora, se lá no tribunal ficassem sabendo do bate-boca ele iria
passar aperto). O doutor precisou ir, mas nós vamos ficar aqui.
CARA II – querida, chama a polícia.
SUJEITO II – não precisa não, querida, eu sou
da polícia.
GARI – é, o senhor extrapolou (linguajar
apurado, ele lia muito os livros que eu arranjava, uns épicos de James
Michener).
O povo clamava, chegou a rádio patrulha.
RÁDIO-POLICIAL – que é que tá engastalhando?
SUJEITO – ah, seu polícia ... (explicou
tudo).
RÁDIO-POLICIAL – o senhor faria o favor de
descer com sua esposa ...
A partir daí o Gari não pode mais contar
porque teve de ir trabalhar, vinha chegando outro gari, com certeza ele seria
dedado.
Serra, quarta-feira, 31 de dezembro de 2014.
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