sábado, 22 de outubro de 2016


Se Essa Rua, Se Essa Rua Fosse Minha ...

 

A MINHA RUA

Se Essa Rua Fosse Minha
 
Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Para o meu
Para o meu amor passar
Nessa rua
Nessa rua tem um bosque
Que se chama
Que se chama solidão
Dentro dele
Dentro dele mora um anjo
Que roubou
Que roubou meu coração
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Tu roubaste
Tu roubaste o meu também
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
É porque
É porque te quero bem

Peguei só um pedacinho como título ilustrativo para contar esse caso aqui do meu bairro, quem me contou foi o gari, dou café e um pão de manhã para ele, conversamos, ficamos amigos.

O cara ia com o cachorrinho dele, saía bem cedo para não perturbar ninguém nem ser perturbado, depois de 5:30 o Sol do horário de verão já estava expulsando os ladrões e ninguém tinha acordado ainda. Esse meu amigo, que não vou falar o nome, saía cedo também, nesse dia estava a uns 50 metros do cara, que passeava na rua, nem era na calçada, se fosse na calçada implicavam com ele.

Estava com o cachorrinho fazendo cocô na rua, ele tinha desistindo de levar saco plástico para colher porque no começo fizera e o pessoal ficara olhando de banda, “ó o otário” (o gari também papeava com ele, aliás, papeava com todo mundo, aqui pra nós acho que ele mais papeava que trabalhava, cala-te boca).

Bem, continuando.

Fiz uma pausa aqui só para encaixar as coisas.

Então, esse cara tava lá, o cachorro cagando na rua, justamente para não ser na calçada.

Apareceu outro cara na casa defronte, segundo andar.

CARA II – ei, que você tá fazendo? Seu cachorro tá cagando na minha calçada?

CARA I (com toda educação) – não, não, é na rua.

CARA II – daqui tá parecendo na calçada.

CARA I – mas daqui estou vendo que não.

CARA II – ah, malcriado, né?

CARA I – não, de modo nenhum.

CARA II – tá me chamando de mentiroso e ainda por cima me desdizendo, né?

CARA I – não, senhor, de maneira nenhuma, o senhor pode apenas estar enganado.

CARA II – enganado o caralho!

MULHER LÁ DE TRÁS – que é, bem? Deixe esse otário pra lá. Você vai se estressar por causa de um bosta?

Vai surgindo um sujeito com cara de mal-humorado do caramba, parecia que a noite não tinha rendido. Foi chegando e encostou. Ficou olhando.

CARA II – é você que traz esse pedaço de cocô para cagar todo dia na nossa calçada.

CARA I – não senhor, eu vario bastante, vou pra esquerda, pra direita, pros fundos, pra frente, certamente é outro.

SUJEITO (se metendo onde não foi chamado) – que é que tá pegando, hem? Em primeiro lugar a calçada não é sua, porisso que é chamada de “passeio público”, é do povo, entendeu?

CARA II – vai se meter na sua vida.

SUJEITO – para seu governo, eu conheço esse senhor, soube que ele ganha bastante, 1/3 do salário grande dele vai nos impostos que sustentam a rua e a calçada, que não é sua, seu sebento. Ele é promotor de justiça.

CARA II (botando o galho dentro) – ah, promotor!?

SUJEITO – é, seu perebento, desce aqui que nós vamos conversar.

A mulher vem chegando, encosta no parapeito, dá as caras, o marido explica o lance, ela: “ah, é?”

SUJEITO – vem aqui, seu bunda mole. E eu conheço essa bisca que é sua esposa.

O gari se aproximou e encostou, não perderia aquilo por nada. Foi juntando mais gente, Cara I aproveitou para se afastar um pouco. Sujeito explicava para quem vinha depois, todo mundo foi ficando indignado.

SUJEITO – eu te conheço, seu animal, vou te pegar na rua.

CARA II (querendo escapulir) – oh, vocês desculpem, vou ter de me preparar para passear na praia.

SUJEITO II – é, desce, passa aqui que nós vamos te cubar na porrada, seu safado que fica implicando com quem tá quieto. Nós conhecemos o doutor aqui (olhou para ver, mas o doutor tinha ido devagarzinho embora, se lá no tribunal ficassem sabendo do bate-boca ele iria passar aperto). O doutor precisou ir, mas nós vamos ficar aqui.

CARA II – querida, chama a polícia.

SUJEITO II – não precisa não, querida, eu sou da polícia.

GARI – é, o senhor extrapolou (linguajar apurado, ele lia muito os livros que eu arranjava, uns épicos de James Michener).

O povo clamava, chegou a rádio patrulha.

RÁDIO-POLICIAL – que é que tá engastalhando?

SUJEITO – ah, seu polícia ... (explicou tudo).

RÁDIO-POLICIAL – o senhor faria o favor de descer com sua esposa ...

A partir daí o Gari não pode mais contar porque teve de ir trabalhar, vinha chegando outro gari, com certeza ele seria dedado.

Serra, quarta-feira, 31 de dezembro de 2014.

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