O Bicho de Sete
Cabeças
Ó, criar esse menino não foi fácil.
Com tantas personalidades assim ele
foi parar no psicanalista. No caso, SETE psicanalistas, porque eram tantas
personalidades que era difícil, tivemos de pagar sete vezes. E olha que não
tinha INSS, não, nem SUS, foi no coco mesmo, cash. Felizmente a avó que pagou.
Os psicanalistas reclamaram, só não
foi mais difícil que mulher, mas chegou perto, eles botaram banca, queriam
receber hora extra! Pode isso? Tinha sete personalidades, claro, um pouco mais
que o Pelé.
Quando ele era criança, nós colocamos
no Jardim de Infância, mas ele mordia os garotos e as meninas e quando
reclamavam ele dizia: foi ele. Ninguém sabia quem tinha sido. “Quem?” “Ele”. E
ficava por isso mesmo. E pra educar no primeiro grau, então? As professoras
reclamavam, tinham estafa, foi colocado numa classe especial, junto com um
Marsupial de intercâmbio da Austrália e um Panda chinês que só vivia reclamando
da qualidade do bambu, o que a gente tem de agüentar não é bolinho não, com
esses estrangeiros.
Reclamavam, as tadinhas.
É que ele fica olhando as provas dos
outros. Sete cabeças, vai querer o quê? Sete independências. Uma cabeça olhava
pra frente e ia escrevendo, as outras ficavam olhando para os lados, aquelas
cabeçonas compridas. Espia, espia, espia. “Fessora, Sete tá olhando minha
prova”. As professoras se descabelavam, pois não podiam colocar sete delas de
cada vez, custava muito.
Lá ia o Sete para sala do diretor, lá
ia a mãe, que eu nunca fui, sou pai, coisa de criança é com as mulheres.
O Sete inclinava uma cabeça, mordia a
perna duma menina, cutucava um menino, roubava a prova de bicada, um inferno,
esgotante mesmo, fiquei uma pilha de nervos, minha mulher mais ainda, tá doido?
O diretor chamou a gente, tive que ir.
O diretor achava a vida dele difícil.
Falei: “e lá em casa, sete
televisores, sete aparelhos de som?”
E a mãe: “sete pratos, com dois
talheres, o senhor acha pouco?” E começou a chorar, a Zilda.
As histórias são muitas.
E daquela vez que foi fazer
vestibular? Uma prova só ou sete? Ele poderia fazer sete cursos e se formar em
sete profissões? Quando estava no segundo ano ainda não tinham decidido, foi
quando estourou a guerra espacial com as trífides. O Tom Cruz-Credo foi. Foi um
herói, nosso Sete, ganhou medalha, tiveram que dar sete, porque cada cabeça
berrava que era de doer. Ficou um pouco doido na batalha, voltou pra casa, fica
urrando que nem um maluco, o que está me provocando uma dor de cabeça danada,
só não sei em qual. A mãe, que quando ele estava fora vivia dizendo “ah, meu
Setinho, meu Setinho” agora tá por aí pela casa dando cabeçadas nas paredes.
Serra, terça-feira, 20 de agosto de
2013.
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