O Bezerro de Ouro
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“Morreram naquele dia uns três mil homens
(Ex 32: 26-28). Mas Arão, que fez o bezerro e organizou a festa dos ídolos,
esse foi poupado. Tem-se aqui a exaltação do nepotismo”.
Fernandes, Jomar Jesus Não é Javé (A
identidade do anjo da morte revelada), São Paulo, Isis, 2013, p. 153.
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Você sabe, Arão, o irmãozinho de Moisés, era
da família. Javé mudou o nome, depois ficou Aarão (para ficar diferente; Javé
sempre usa esses artifícios, sempre para dificultar a adivinhação: por exemplo,
Sarai ficou Sara e Abrão ficou Abraão; é igual o Super-Homem, sem os óculos é o
SH, com os óculos é Clark Kent, ninguém diz).
A coisa toda, aqui pra nós, é que Moisés
subiu no monte Sinai e esqueceu da vida, ficou de prosa com Javé 40 dias, sei
lá, a gente diz 40 quando perdeu a conta, tá lembrado de Noé, “40 dias e 40
noites de chuva”, não é?
Então, vai que vai, Moisés ficou lá papeando
com Javé e esqueceu da vida, a gente escutava as risadas, parecia piada.
Vou te contar, 40 dias.
O que o pessoal ia fazer?
Não tô justificando, mas o fato é que dá
tédio.
Lá vem Moisés descendo com as tábuas, todo
satisfeito e tal, ficou bravo! Bom, eu, o que a gente ia fazer?
Antes dele chegar foi assim.
Foi passando o tempo. Foi passando o tempo,
na correria de sair do Egito a gente esqueceu o baralho, o xadrez, as damas
(exceto de noite, você entendeu), aquela pasmaceira, alguém falou.
ALGUÉM – ei, turma, por que a gente não faz
um bezerro de ouro?
Ah, pra que, deu aquela animação.
Fulano perguntou quem iria dirigir os
trabalhos.
FULANO – ei, quem vai pegar na cabeça? Quer
dizer, no chifre do touro, quer dizer, do bezerro.
Outra pessoa gozou.
OUTRA PESSOA – bezerro não tem chifre, seu
idiota, é porisso que é chamado de bezerro, justamente o que vai ser touro e
não tem chifre ainda, não casou.
FULANO – vamos botar o Arão, que é irmão do
homem, se der errado a gente põe a culpa nele.
De fato, o Arão não era muito esperto, se não
fosse o nepotismo ele teria de ser funcionário de empresa, teria de ralar, mas
Moisés colocou ele no serviço público.
Concordamos, botamos o Arão. E toca juntar
berloques das mulheres, ele não queriam dar (de noite, depois disso, foi um
custo), pegamos tudo (só de homens tinha 600 mil, mulher outro tanto, coisinhas
das crianças, juntamos). Derrete, faz o bezerro, tinha muitos metalúrgicos,
tinha um sem dedo encostado pelo JNSS que nunca tinha trabalhado na vida.
Ficou pronto o bezerro, meio tosco.
Arão colocou lá na frente, pra cima um pouco
do pé do morro, tá lembrado? Em cima de um pedestal, claro.
UM NA MULTIDÃO – esse bezerro é de quantos
quilates?
OUTRO NA MULTIDÃO – Arão, cê desviou algum
procê e pro seu irmãozinho?
ARÃO – quem falou isso? Quem falou isso?
VÁRIOS – foi ele, foi ele!
MAIS UM – Arão, acho que esse bezerro não é
maciço, é de louça por dentro, cê desviou mesmo, né, seu danadinho!
ARÃO – quem falou isso? Quem falou isso?
OUTRO AINDA – Arão, mostra o caixa dois.
ARÃO – quem falou isso? Quem falou isso?
Fiquei calado, o pessoal tava rindo pra
caralho, fiquei na moita, apartei do pessoal, fiquei na esquerda, o pessoal
gargalhava, urrava, chorava de tanto rir, ninguém viu Moisés chegando, porque
tinha um matagal que ocultava, ele veio de súbito, eu junto do pessoal que
fingia ser do contra. Porisso que posso contar.
COIÓ QUE NÃO VIU – e aí, Arão, cê raspou o
bezerro por dentro?
MOISÉS (fazendo gesto pros homens de preto
cercarem os atrevidos) – pega!
Foi aí que deu bode, quer dizer, deu bezerro,
porque Moisés jogou as tábuas no bezerro e quebrou ele todo, mostrando que não
era mesmo maciço. Fiquei na minha, até apontei uns e outros, na soma, assim,
deu três mil, alguns eram meus amigos, ainda bem que não me dedaram, muito
alvoroço, os pedaços de bezerro foram recolhidos pela guarda, não sei que fim
tiveram.
Foram três mil.
Perto de três, arredondando vamos dizer três
mil.
A bem da verdade, foi e não foi nepotismo.
Antes, foi, porque ele pegou o cargo sem concurso público, depois não foi
porque nós que indicamos ele, tá certo? Aí não foi, nós é que o colocamos lá. E
se um tiquinho é afanado, é tudo em nome da sustentação do Estado, é tributo.
Serra, sábado, 20 de dezembro de 2014.
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