sexta-feira, 21 de outubro de 2016


Meta Governamental

 

Trocaram abraços, alegraram-se do reencontro.

- E aí, tá onde?

- Tô na empresa privada, firma de engenharia de aparelhos médicos revolucionários, incorporação de alta tecnociência, informática de ponta.

- Puxa, que maravilha, cibernética, era o meu sonho, Wiener, Ashby, Von Newman.

- E você?

O semblante do outro escurece.

- Governo.

- Pela cara, não tá gostando. Muito trabalho?

- Não, pelo contrário, mordomia.

- Salário ruim.

- Não, trabalho pros de cima, pra você ter ideia a mulher do cafezinho ganha mais de sete mil, o ascensoristas 16.

- Poxa! E eu que pensei que tava bem.

- Quanto a isso não posso reclamar, tô defendendo o uísque das crianças muito bem.

- Então, o que tá pegando?

- Tô no círculo interno, o círculo dos coelhos.

- Que é isso?

- É que eles gostam de cenouras.

- Cenouras cor de abóbora.

- Não, eles gostam das verdinhas, das originais. Coloco várias, elas são levadas em disparada por mecanismo, os coelhos vão correndo atrás em círculos, pra alimentar a matilha, não param de ir atrás das verdinhas. E correm e correm e correm, é espantoso ver toda aquela correria à caça das verdinhas.

- Não param, não se cansam?

- De modo nenhum, nunca, a vida deles é correr e pegar as verdinhas. Têm uma ganância que só vendo.

- E ficam assim, correndo sem parar, não tem uma meta, um ponto de chegada?

- Não, em se tratando de governo não há meta nenhuma, a não ser, é claro, ir em frente, sempre tentando abocanhar.

- Sei não, na empresa privada é diferente. Lógico, tem o lado ruim, a começar do nome, empresa PRIVADA, mas pelo menos há produtos no fim da linha de montagem. Bem, pelo menos você tá ganhando os tubos.

- Se eu pudesse me contentar com isso, mas agora de tanto ver as verdinhas tá me dando uma fome danada.

Serra, terça-feira, 20 de agosto de 2013.

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