Meta Governamental
Trocaram abraços, alegraram-se do
reencontro.
- E aí, tá onde?
- Tô na empresa privada, firma de
engenharia de aparelhos médicos revolucionários, incorporação de alta
tecnociência, informática de ponta.
- Puxa, que maravilha, cibernética,
era o meu sonho, Wiener, Ashby, Von Newman.
- E você?
O semblante do outro escurece.
- Governo.
- Pela cara, não tá gostando. Muito
trabalho?
- Não, pelo contrário, mordomia.
- Salário ruim.
- Não, trabalho pros de cima, pra você
ter ideia a mulher do cafezinho ganha mais de sete mil, o ascensoristas 16.
- Poxa! E eu que pensei que tava bem.
- Quanto a isso não posso reclamar, tô
defendendo o uísque das crianças muito bem.
- Então, o que tá pegando?
- Tô no círculo interno, o círculo dos
coelhos.
- Que é isso?
- É que eles gostam de cenouras.
- Cenouras cor de abóbora.
- Não, eles gostam das verdinhas, das
originais. Coloco várias, elas são levadas em disparada por mecanismo, os
coelhos vão correndo atrás em círculos, pra alimentar a matilha, não param de
ir atrás das verdinhas. E correm e correm e correm, é espantoso ver toda aquela
correria à caça das verdinhas.
- Não param, não se cansam?
- De modo nenhum, nunca, a vida deles
é correr e pegar as verdinhas. Têm uma ganância que só vendo.
- E ficam assim, correndo sem parar,
não tem uma meta, um ponto de chegada?
- Não, em se tratando de governo não
há meta nenhuma, a não ser, é claro, ir em frente, sempre tentando abocanhar.
- Sei não, na empresa privada é
diferente. Lógico, tem o lado ruim, a começar do nome, empresa PRIVADA, mas
pelo menos há produtos no fim da linha de montagem. Bem, pelo menos você tá
ganhando os tubos.
- Se eu pudesse me contentar com isso,
mas agora de tanto ver as verdinhas tá me dando uma fome danada.
Serra, terça-feira, 20 de agosto de
2013.
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