quinta-feira, 20 de outubro de 2016


Here CIA

 

Foi numa reunião de diretoria, ouvi falar.

O pessoal todo estava quebrando a cabeça tentando ter ideias sobre como melhorar a imagem da CIA (Central Intelligence Agency, Agência Central de Inteligência – americana; isso não existe no Brasil), porisso chamada Companhia (na língua deles seria Company, não sei de onde viria o A, nem o I), foi um amigo brasileiro que participou. Naturalmente naturalizado americano. Subiu no escalão na base de puxar saco, bag.

Tinha todo tipo de ideia maluca, desde CIA nas Escolas até distribuir bottoms para universitários debilóides, cadernos com estampas, filmes de Hollywood, sorteio de máquinas de lavar, concursos, marqueteiros do Lulambão e da Dilmandona (essa quase colou, se conseguiram com ele e ela conseguiriam qualquer coisa), declarações de Putin em troca de assessoria bombástica, desfiles na Praça da Paz Quase Celestial, paraquedistas saltando do Corcovado com as cores da Companhia, várias conspirações e contra conspirações, revoluções no México, destruição das FARC (se bem que eram amigos), fim do tráfico de drogas (apenas a Cia se retirando DIA após DIA), outro filme de Indiana Jones, ressurreição do Rambo, ressurreição do Concord, ressurreição do Mambo, ressurreição da Mamba, piranhas gigantes mutantes genéticas cantando músicas francesas ...

Coisas inusitadas.

Pra você ter ideia, dava mais de um giga.

Isso em palavra é muita coisa.

Algumas apresentações foram elaboradas.

Até que lá pelo enésimo dia tava aquele silêncio, alguma alma boa disse: diretor, já que a da Companhia pretende a pacificação exterior e não tá dando resultado, por que a gente não ensina economia e administração, direito e contabilidade, engenharia e outras coisas que deram certo internamente, em vez de emprestar dinheiro que some e vender armas que acabam por matá-los mutuamente?

O silêncio aprofundou.

Era tão forte, tão opressivo que até os átomos pararam de vibrar, não se ouvia uma cambaxirra, um pombo arrulhar, o ar congelou, as nuvens imobilizaram, os raios do Sol ficaram quietinhos, não deram um passo adiante. Os tijolos puxaram o ar e ficaram em suspense. A turma toda (que se conhecia faz tempo, desde o treinamento, subiram todos juntos, fora um ou outro ou outra) parou também de respirar, esperando o pronunciamento do diretor.

O diretor mesmo, este estava com dificuldade de absorver a ideia.

Ficou paradinho até cair a ficha.

Então jogou a cadeira para trás e gritou: O QUEEEEEEE?

Os ex-amigos também gritaram: O QUUUUUEEEEEEE?

Jogaram as cadeiras para trás e procuraram se afastar do ex-amigo.

DIRETOR – você quer dizer ...ajudar?

IMPRUDENTE (querendo se justificar) – é, se eles estivessem se desenvolvendo não atacariam os EUA.

DIRETOR – você, você, você, você (quatro, porque ele tinha perdido o norte, o oeste, o leste e o sul).

Daí pra frente foi o pandemônio, todos os demônios, foi o caos completo, foi quase como quando o Brasil perdeu da Alemanha de 1 a 7, sete pra eles na Copa do Mundo de 2014, depois de gastar mais de 10 bilhões de dólares. Foi um arraso, as pessoas nem se cumprimentam mais pelos corredores, andam de cabeça baixa, nem está havendo mais escândalos envolvendo a companhia, você deve ter notado. Tá depressivo demais.

Deram ideia de matar o cara, mas assim ele não sofreria, de modo que ele foi colocado numa salinha, a mesa dá de cara pra parede, ele tem de entrar, subir na mesa pra fechar a porta e sentar. Não tem nada a fazer, não tem computador, não tem pastas antigas, não tem nem palavras cruzadas. Oito horas olhando a parede, parece que o exercício dele é imaginar que a pintura é um mundo e há seres alienígenas minúsculos andando nele, deixando mensagens dos astronautas seres alienígenas minúsculos antigos.

Quanto ao nome, foi esse meu amigo que deu, o diretor acatou: Here CIA (aqui CIA, na língua deles), em português soando como HERESIA, esse amigo explicou. Parece que só de picardia o pessoal passa o dia todo defronte do cubículo, bate na porta, ele tem de subir na mesa, puxar a cadeira, abrir a porta para não ver ninguém. É duro.

Serra, sexta-feira, 26 de dezembro de 2014.

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