Here
CIA
Foi numa reunião de diretoria, ouvi
falar.
O pessoal todo estava quebrando a
cabeça tentando ter ideias sobre como melhorar a imagem da CIA (Central
Intelligence Agency, Agência Central de Inteligência – americana; isso não
existe no Brasil), porisso chamada Companhia (na língua deles seria Company,
não sei de onde viria o A, nem o I), foi um amigo brasileiro que participou.
Naturalmente naturalizado americano. Subiu no escalão na base de puxar saco,
bag.
Tinha todo tipo de ideia maluca, desde
CIA nas Escolas até distribuir bottoms para universitários debilóides, cadernos
com estampas, filmes de Hollywood, sorteio de máquinas de lavar, concursos,
marqueteiros do Lulambão e da Dilmandona (essa quase colou, se conseguiram com
ele e ela conseguiriam qualquer coisa), declarações de Putin em troca de
assessoria bombástica, desfiles na Praça da Paz Quase Celestial, paraquedistas
saltando do Corcovado com as cores da Companhia, várias conspirações e contra
conspirações, revoluções no México, destruição das FARC (se bem que eram
amigos), fim do tráfico de drogas (apenas a Cia se retirando DIA após DIA),
outro filme de Indiana Jones, ressurreição do Rambo, ressurreição do Concord,
ressurreição do Mambo, ressurreição da Mamba, piranhas gigantes mutantes genéticas
cantando músicas francesas ...
Coisas inusitadas.
Pra você ter ideia, dava mais de um
giga.
Isso em palavra é muita coisa.
Algumas apresentações foram
elaboradas.
Até que lá pelo enésimo dia tava
aquele silêncio, alguma alma boa disse: diretor, já que a da Companhia pretende
a pacificação exterior e não tá dando resultado, por que a gente não ensina
economia e administração, direito e contabilidade, engenharia e outras coisas
que deram certo internamente, em vez de emprestar dinheiro que some e vender
armas que acabam por matá-los mutuamente?
O silêncio aprofundou.
Era tão forte, tão opressivo que até
os átomos pararam de vibrar, não se ouvia uma cambaxirra, um pombo arrulhar, o
ar congelou, as nuvens imobilizaram, os raios do Sol ficaram quietinhos, não
deram um passo adiante. Os tijolos puxaram o ar e ficaram em suspense. A turma
toda (que se conhecia faz tempo, desde o treinamento, subiram todos juntos,
fora um ou outro ou outra) parou também de respirar, esperando o pronunciamento
do diretor.
O diretor mesmo, este estava com
dificuldade de absorver a ideia.
Ficou paradinho até cair a ficha.
Então jogou a cadeira para trás e
gritou: O QUEEEEEEE?
Os ex-amigos também gritaram: O
QUUUUUEEEEEEE?
Jogaram as cadeiras para trás e
procuraram se afastar do ex-amigo.
DIRETOR – você quer dizer ...ajudar?
IMPRUDENTE (querendo se justificar) –
é, se eles estivessem se desenvolvendo não atacariam os EUA.
DIRETOR – você, você, você, você (quatro,
porque ele tinha perdido o norte, o oeste, o leste e o sul).
Daí pra frente foi o pandemônio, todos
os demônios, foi o caos completo, foi quase como quando o Brasil perdeu da
Alemanha de 1 a 7, sete pra eles na Copa do Mundo de 2014, depois de gastar
mais de 10 bilhões de dólares. Foi um arraso, as pessoas nem se cumprimentam
mais pelos corredores, andam de cabeça baixa, nem está havendo mais escândalos
envolvendo a companhia, você deve ter notado. Tá depressivo demais.
Deram ideia de matar o cara, mas assim
ele não sofreria, de modo que ele foi colocado numa salinha, a mesa dá de cara
pra parede, ele tem de entrar, subir na mesa pra fechar a porta e sentar. Não
tem nada a fazer, não tem computador, não tem pastas antigas, não tem nem
palavras cruzadas. Oito horas olhando a parede, parece que o exercício dele é
imaginar que a pintura é um mundo e há seres alienígenas minúsculos andando
nele, deixando mensagens dos astronautas seres alienígenas minúsculos antigos.
Quanto ao nome, foi esse meu amigo que
deu, o diretor acatou: Here CIA (aqui CIA, na língua deles), em português soando
como HERESIA, esse amigo explicou. Parece que só de picardia o pessoal passa o
dia todo defronte do cubículo, bate na porta, ele tem de subir na mesa, puxar a
cadeira, abrir a porta para não ver ninguém. É duro.
Serra, sexta-feira, 26 de dezembro de
2014.
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