Teosofone IX – Nem
Todo Mundo Vê
George foi à padaria, ficou na fila de
pegar o pão, ficou na fila de pagar e ao contrário do que fazia comprou um
jornal A Tribuna de Wichita para passar o tempo. Quando abriu, claro, lá estava
a face sorridente de Deus.
- Oi George.
- Oi, até aqui?
- Não tá feliz de me ver?
- Pelo contrário, tô sim, sinto falta.
O cara de trás ficou olhando ele
falando.
George virou-se.
GEORGE – tá vendo?
CARA DE TRÁS – O quê?
GEORGE – não tá vendo?
CARA DE TRÁS – tô, ué.
GEORGE (espantado) – TÁ VENDO?
CARA DE TRÁS (dando de ombros, em
dúvida) – tô.
GEORGE (satisfeito) – tá vendo?
CARA DE TRÁS – claro, é um jornal, já
conheço jornal.
GEORGE (segurando o jornal com as duas
mãos, aponta com o queixo) – não, aqui, ó.
CARA DE TRÁS – o quê?
GEORGE (mais insistente, com o queixo)
– AQUI, ó, Deus.
CARA DE TRÁS – tá ficando doido?
GEORGE (decepcionado) – não tá vendo?
CARA DE TRÁS – tô, é um jornal com
notícias.
Chegou a vez de George, ele paga,
dobra o jornal, a face de Deus pula pra frente, ele sai.
CAIXA – porra, Tião, você é sempre
premiado, né?
TIÃO – cara, isso só cai pra mim, é
cada doido que me aparece...
George se distanciou, atravessou a
rua, parou na lanchonete na frente, pediu um pastel e um café. Fica com o
jornal, sem abrir, olhando a folha de rosto, lá está a face sorridente de Deus.
DEUS – eles não podem me ver, George,
só deixo me ver quem eu quero.
GEORGE – entendi. Que é agora?
DEUS – nada, George, você sabe...
GEORGE – a eternidade é muito longa.
DEUS – acostumei com você, George. Mas
não se dê ares de importante, estou conversando ao mesmo tempo com zilhões só
neste universo.
GEORGE – sei, onipresença.
DEUS (todo feliz, de George ter
aprendido) – é isso mesmo, George, é muito divertido. Tem gente de todo tipo no
universo, se você visse como a fita de herança se manifestou em cada lugar!
GEORGE – me mostre, então!
DEUS – não posso, George, tudo tem seu
tempo certo. Quer ver? Você sabe aquele negócio de nanotubos e buckybolas?
GEORGE – já ouvi falar.
DEUS – então. Eles são de carbono e
vocês só descobriram faz pouco tempo. Quer ver uns feitos de diamante?
GEORGE – existem?
DEUS – ô, George... Sou eu, entende?
GEORGE – mostre.
DEUS (mais feliz ainda) – olhe.
Diante do jornal, em 3D aparecem uma
bola de cristal, uma buckybola linda, brilhante, e um tubo também de diamante,
do tamanho de uma caneta Bic.
Os olhos de George arregalam.
GEORGE – devem valer uma fortuna!
Posso pegar?
DEUS – pode, pode.
Eles se manifestam na palma de George.
GEORGE – posso ficar pra mim?
DEUS – não, George, é isso que quero
dizer, eles só vão ser possíveis na Terra daqui a 200 ou 300 anos.
GEORGE – você não é onisciente, porque
a faixa?
DEUS – sou, sou, mas é vocês,
compreende, depende de ritmo, os tijolinhos da Natureza são bem ruinzinhos.
GEORGE – posso ficar ou não?
DEUS – claro que não, George, como
você explicaria algo impossível? Mil hipóteses pintariam no pedaço.
Os dois lindos objetos começam a
desaparecer, involuntariamente a mão de George se fecha, mas eles vão se
dissolvendo.
GEORGE (em voz baixinha) – droga, droga.
DEUS – George!
GEORGE – eu sei, você não gosta que
resmunguem.
Serra, quarta-feira, 17 de julho de
2013.
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