sábado, 22 de outubro de 2016


Teosofone IX – Nem Todo Mundo Vê

 

George foi à padaria, ficou na fila de pegar o pão, ficou na fila de pagar e ao contrário do que fazia comprou um jornal A Tribuna de Wichita para passar o tempo. Quando abriu, claro, lá estava a face sorridente de Deus.

- Oi George.

- Oi, até aqui?

- Não tá feliz de me ver?

- Pelo contrário, tô sim, sinto falta.

O cara de trás ficou olhando ele falando.

George virou-se.

GEORGE – tá vendo?

CARA DE TRÁS – O quê?

GEORGE – não tá vendo?

CARA DE TRÁS – tô, ué.

GEORGE (espantado) – TÁ VENDO?

CARA DE TRÁS (dando de ombros, em dúvida) – tô.

GEORGE (satisfeito) – tá vendo?

CARA DE TRÁS – claro, é um jornal, já conheço jornal.

GEORGE (segurando o jornal com as duas mãos, aponta com o queixo) – não, aqui, ó.

CARA DE TRÁS – o quê?

GEORGE (mais insistente, com o queixo) – AQUI, ó, Deus.

CARA DE TRÁS – tá ficando doido?

GEORGE (decepcionado) – não tá vendo?

CARA DE TRÁS – tô, é um jornal com notícias.

Chegou a vez de George, ele paga, dobra o jornal, a face de Deus pula pra frente, ele sai.

CAIXA – porra, Tião, você é sempre premiado, né?

TIÃO – cara, isso só cai pra mim, é cada doido que me aparece...

George se distanciou, atravessou a rua, parou na lanchonete na frente, pediu um pastel e um café. Fica com o jornal, sem abrir, olhando a folha de rosto, lá está a face sorridente de Deus.

DEUS – eles não podem me ver, George, só deixo me ver quem eu quero.

GEORGE – entendi. Que é agora?

DEUS – nada, George, você sabe...

GEORGE – a eternidade é muito longa.

DEUS – acostumei com você, George. Mas não se dê ares de importante, estou conversando ao mesmo tempo com zilhões só neste universo.

GEORGE – sei, onipresença.

DEUS (todo feliz, de George ter aprendido) – é isso mesmo, George, é muito divertido. Tem gente de todo tipo no universo, se você visse como a fita de herança se manifestou em cada lugar!

GEORGE – me mostre, então!

DEUS – não posso, George, tudo tem seu tempo certo. Quer ver? Você sabe aquele negócio de nanotubos e buckybolas?

GEORGE – já ouvi falar.

DEUS – então. Eles são de carbono e vocês só descobriram faz pouco tempo. Quer ver uns feitos de diamante?

GEORGE – existem?

DEUS – ô, George... Sou eu, entende?

GEORGE – mostre.

DEUS (mais feliz ainda) – olhe.

Diante do jornal, em 3D aparecem uma bola de cristal, uma buckybola linda, brilhante, e um tubo também de diamante, do tamanho de uma caneta Bic.

Os olhos de George arregalam.

GEORGE – devem valer uma fortuna! Posso pegar?

DEUS – pode, pode.

Eles se manifestam na palma de George.

GEORGE – posso ficar pra mim?

DEUS – não, George, é isso que quero dizer, eles só vão ser possíveis na Terra daqui a 200 ou 300 anos.

GEORGE – você não é onisciente, porque a faixa?

DEUS – sou, sou, mas é vocês, compreende, depende de ritmo, os tijolinhos da Natureza são bem ruinzinhos.

GEORGE – posso ficar ou não?

DEUS – claro que não, George, como você explicaria algo impossível? Mil hipóteses pintariam no pedaço.

Os dois lindos objetos começam a desaparecer, involuntariamente a mão de George se fecha, mas eles vão se dissolvendo.

GEORGE (em voz baixinha) – droga, droga.

DEUS – George!

GEORGE – eu sei, você não gosta que resmunguem.

Serra, quarta-feira, 17 de julho de 2013.

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