Pó de Ser
Estava difícil conseguir Pó de Ser,
poucos estavam interessados em ser, mais gente queria ter, alguns até queriam
ter muito: Pó de Ter era muito mais facilmente buscado e encontrado, em
qualquer lugar tinha, em cada casa, o estoque era grande, enormidade de gente
interessada.
Raça danada, desde criancinhas eles
eram ensinados a desejar o TER, poucos eram encaminhados para o SER, por
exemplo, para os mosteiros, onde as pessoas treinavam arduamente para abandonar
as doenças relacionadas ao Pó de Ter em que tantos eram viciados, até chegar ao
ponto mais baixo, a condição conhecida como CONSUMISMO, sendo ismo a
superafirmação, a doença mental: o consumismo era a doença mental do excesso de
consumo.
Prostração, essa era a verdade.
Nos centros de compra era fácil ver
pelos olhos, vermelhos de Pó de Ter, nem adiantava colocar colírio ou andar de
óculos escuros.
Os monges e os eremitas, os sufis, os
recolhidos às orações que sabiam como fazer Pó de Ser não conseguiam produzir
bastante porque estavam rareando em número, eram poucos que cuidavam disso,
poucos santos e santas e sábios havia nesta era, todos acabrunhados com a
fabricação contínua e contínua propaganda e venda do Pó de Ter.
Ôxa, era terrível.
As pessoas só queriam o Pó de Ter,
poucos estavam interessados em Pó de Ser: ser bom, ser fiel, ser generoso, ser
honesto, ser consequente, ser sábio – nenhuma das variações do Pó de Ser estava
na pós-contemporaneidade sendo procurada.
Tudo aquilo que os iluminados tinham
entregue aos seres humanos, tudo que os santos/sábios transferiram vinha sendo
menosprezado.
As pessoas perguntavam
insistentemente: pode ter sexo? Pode ter televisor? Pode ter carro? Pode ter
mansão? Pode ter piscina?
Eles só queriam as coisas externas.
Poucos perguntavam pelo lado bom do
dicionário.
Pode ser que a humanidade escape.
Serra, terça-feira, 30 de dezembro de
2014.
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