sexta-feira, 21 de outubro de 2016


Pó de Ser

 

Estava difícil conseguir Pó de Ser, poucos estavam interessados em ser, mais gente queria ter, alguns até queriam ter muito: Pó de Ter era muito mais facilmente buscado e encontrado, em qualquer lugar tinha, em cada casa, o estoque era grande, enormidade de gente interessada.

Raça danada, desde criancinhas eles eram ensinados a desejar o TER, poucos eram encaminhados para o SER, por exemplo, para os mosteiros, onde as pessoas treinavam arduamente para abandonar as doenças relacionadas ao Pó de Ter em que tantos eram viciados, até chegar ao ponto mais baixo, a condição conhecida como CONSUMISMO, sendo ismo a superafirmação, a doença mental: o consumismo era a doença mental do excesso de consumo.

Prostração, essa era a verdade.

Nos centros de compra era fácil ver pelos olhos, vermelhos de Pó de Ter, nem adiantava colocar colírio ou andar de óculos escuros.

Os monges e os eremitas, os sufis, os recolhidos às orações que sabiam como fazer Pó de Ser não conseguiam produzir bastante porque estavam rareando em número, eram poucos que cuidavam disso, poucos santos e santas e sábios havia nesta era, todos acabrunhados com a fabricação contínua e contínua propaganda e venda do Pó de Ter.

Ôxa, era terrível.

As pessoas só queriam o Pó de Ter, poucos estavam interessados em Pó de Ser: ser bom, ser fiel, ser generoso, ser honesto, ser consequente, ser sábio – nenhuma das variações do Pó de Ser estava na pós-contemporaneidade sendo procurada.

Tudo aquilo que os iluminados tinham entregue aos seres humanos, tudo que os santos/sábios transferiram vinha sendo menosprezado.

As pessoas perguntavam insistentemente: pode ter sexo? Pode ter televisor? Pode ter carro? Pode ter mansão? Pode ter piscina?

Eles só queriam as coisas externas.

Poucos perguntavam pelo lado bom do dicionário.

Pode ser que a humanidade escape.

Serra, terça-feira, 30 de dezembro de 2014.

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