quinta-feira, 20 de outubro de 2016


Gente Pequena da América

 

Algum daqueles americanos (eles têm mais de 300 milhões de habitantes, muitos dos quais competentes e até extremamente competentes) capazes de fazer literalmente de tudo voltou-se para o que eles chamam de Gente Pequena, os anões e as anãs. Como tudo por lá, a condição deles passou pela advocacia, pela Justiça, pela Constituição (que lá eles respeitam, ao contrário de no Brasil) e eles tiveram ganhos desconhecidos no resto do mundo. Ganharam respeito constitucional.

Esse audacioso decidiu fazer um levantamento exaustivo de toda GPA, Gente Pequena da América pela qual tinha a maior consideração, em razão não somente da condição dela em tamanho menor enfrentar a vida, mas de seu esforço tão maior de sobrevivência, luta não-valorizada, pelo contrário, contava sempre com a desconsideração dos bobos.

Ficou conhecido, ficou conhecidíssimo.

Por um lado, a GPA toda ficou agradecida não tanto por ele abordar, como pela sensibilidade real da abordagem. E ela faz propaganda à boca miúda, falando baixinho e indo longe. Por outro lado, todos os que simpatizavam falaram mais ainda. Ele foi convidado por inúmeras redes de TV, por toda a mídia, foi sucesso instantâneo, tremendo mesmo.

Naturalmente, tudo é onda, o que sobe desce, o sucesso declinou, ele já estava acostumado, sempre passava um, “oi, fulano”, “grande jogada”, “aí, manalto (mano alto) ”, adulação que foi rareando até ficar como um fiapo de água, um córrego, um riozinho de satisfação.

Até que um amigo sugeriu: “por que você não aproveita o duplo sentido e fala da ‘gente grande’ da América (EUA) ”?

Ele entendeu, foi um estalo.

“Entendi”.

E o outro: “aproveita, fala logo de toda a ‘gente grande’ das Américas, México (cartel de Medellín), Colômbia, Venezuela, Brasil, Argentina, Cuba e o resto todo da curriola”.

“Entendi, entendi”, ele vibrava.

Esqueceu que a ‘gente pequena’ das Américas é diferente da ‘gente pequena’ dos EUA, sujeita à lei. Depois da publicação não durou nem duas semanas, o corpo nem apareceu, sequer aos pedaços, só os documentos de identidade foram recebidos nas redações, que (nos EUA) deram grande e indignada cobertura.

O governo mandou o FBI investigar internamente e a CIA externamente, mas eles não foram muito eficazes, até porque os nomes de certos diretores constavam das denúncias – poderia parecer perseguição.

A muito admirável GPA ficou tristíssima, já não há quem a defenda, coisa horrível mesmo.

Serra, segunda-feira, 22 de dezembro de 2014.

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