Fazendo a Revolução
O professor ficava diante do quatro
(negro, verde, branco) e dizia:
- Gente, vamos supor que temos de
fazer a revolução e que começamos da ponta de um alfinete.
Então, batia com a ponta do giz (ou do
pincel) no quadro.
- Este é o começo. Se só houver ele
nada deixará de ser excluído e estaremos prontos. Vamos ver se excluímos alguma
coisa de que a gente goste muito e seja inegociável.
Fazia-se silêncio na sala.
Encompridava, ficava meio constrangedor, o professor puxava:
- Podem falar, sem acanhamento.
Timidamente alguém dizia, bem
baixinho.
- Churrasco.
- Que é, dona Nair?
- Churrasco.
- Churrasco. Gente, podemos ficar sem
churrasco?
TODOS – não, professor.
Ele ia e escrevia no canto superior
direito ou esquerdo bem pequenininho, tão pequeno que as pessoas mais de trás
não conseguiam ver, mas como tinham ouvido, sabiam o que era.
- Hipoglós nas assaduras.
- Praia naquele calorão.
- Cerveja véu de noiva, geladíssima no
verão.
- Bacalhau à portuguesa.
- Grandes filmes.
- Grandes músicas.
- Internet.
- Preservação da vida.
- Igreja.
- Amigos (vários bateram palmas: “já
lembrou tarde”).
- Matemática.
- Chiclete.
E a lista foi crescendo, ele passou
para o outro lado.
- Matisse (lá de trás um provocador
gritou: quem?)
- Piscina.
- Iogurte.
E foram e foram e foram, o quadro foi
enchendo até não haver nem um buraquinho, o professor foi escrevendo no meio,
ficou tudo branco.
- Tá bem, turma, pode ir.
Eles saíam, o professor ia até a
diretoria da firma capitalista falar da missão cumprida: mais 40 pra caçapa.
Serra, sexta-feira, 19 de julho de
2013.
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