quinta-feira, 20 de outubro de 2016


Fazendo a Revolução

 

O professor ficava diante do quatro (negro, verde, branco) e dizia:

- Gente, vamos supor que temos de fazer a revolução e que começamos da ponta de um alfinete.

Então, batia com a ponta do giz (ou do pincel) no quadro.

- Este é o começo. Se só houver ele nada deixará de ser excluído e estaremos prontos. Vamos ver se excluímos alguma coisa de que a gente goste muito e seja inegociável.

Fazia-se silêncio na sala. Encompridava, ficava meio constrangedor, o professor puxava:

- Podem falar, sem acanhamento.

Timidamente alguém dizia, bem baixinho.

- Churrasco.

- Que é, dona Nair?

- Churrasco.

- Churrasco. Gente, podemos ficar sem churrasco?

TODOS – não, professor.

Ele ia e escrevia no canto superior direito ou esquerdo bem pequenininho, tão pequeno que as pessoas mais de trás não conseguiam ver, mas como tinham ouvido, sabiam o que era.

- Hipoglós nas assaduras.

- Praia naquele calorão.

- Cerveja véu de noiva, geladíssima no verão.

- Bacalhau à portuguesa.

- Grandes filmes.

- Grandes músicas.

- Internet.

- Preservação da vida.

- Igreja.

- Amigos (vários bateram palmas: “já lembrou tarde”).

- Matemática.

- Chiclete.

E a lista foi crescendo, ele passou para o outro lado.

- Matisse (lá de trás um provocador gritou: quem?)

- Piscina.

- Iogurte.

E foram e foram e foram, o quadro foi enchendo até não haver nem um buraquinho, o professor foi escrevendo no meio, ficou tudo branco.

- Tá bem, turma, pode ir.

Eles saíam, o professor ia até a diretoria da firma capitalista falar da missão cumprida: mais 40 pra caçapa.

Serra, sexta-feira, 19 de julho de 2013.

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