segunda-feira, 24 de outubro de 2016


Bruxaria

 

O cara entrou fuzilando na loja.

Era uma Bruxaria, como existem pastelarias que vendem pasteis, revistarias que vendem revistas, tabacarias que vendem tabaco e assim por diante, essa vendia bruxas, bruxos, feiticeiros, feiticeiras, magos e magas, mandingueiros e mandingueiras, essas coisas.

O proprietário estava a postos.

O intruso estava furioso.

INTRUSO (apoiando-se no balcão com vidros que mostravam os objetos) – comprei umas porcarias aqui ...

PROPRIETÁRIO (apontando os vidros em perigo de rachar) – cuidado.

INTRUSO (levantando os cotovelos, incomodado por ter sido chamado à atenção) – que que é?

PROPRIETÁRIO (cuidadoso, com as mãos na cintura, desafiante) – o senhor vai quebrar o vidro.

INTRUSO – e daí, se eu quebrar? Não estou de bom humor.

PROPRIETÁRIO (botando o galho dentro) – o que se passa? Posso ajudar?

INTRUSO – não sei. Comprei aqui uma Bruxa, não funcionou, uma porcaria.

PROPRIETÁRIO – ah, meu senhor, aqui é loja de periferia, cidade do interior, o estado da coisa, o senhor sabe, Brasil, o que o senhor poderia esperar?

INTRUSO – moro aqui, eu sei: três S, SSS, cidade suja, povo selvagem, serviço ruim, mas assim também, não, né, pelo meu dinheiro sempre muito bom quero coisa que funcione. Não funcionou.

PROPRIETÁRIO – é magia, meu senhor, é mentira, é para divertir, se quiser coisa séria tem de pegar outra coisa, é para passar o tempo, tem de fingir que acredita.

INTRUSO – quando comprei disseram que iria funcionar.

PROPRIETÁRIO – claro, a mentira.

INTRUSO – mas, se nem isso! Quebrou, estou dizendo!

PROPRIETÁRIO – nos estrangeiros é melhor que aqui, lá as mentiras funcionam, aqui nem sempre, o senhor tem de dar um desconto. Nos EUA, na Europa, principalmente na Grã-Bretanha e na França, a mentirada corre solta e ninguém reclama.

INTRUSO – mas não estou lá, estou aqui.

PROPRIETÁRIO (falando baixinho, quase inaudível, para trás: “podia ir”) – vamos tentar resolver. O que está pegando?

INTRUSO – era festa de aniversário dos gêmeos, eu queria uma coisa que enganasse como aquelas de Brasília, para depois eu dizer, é tudo mentira, vocês não devem acreditar nessas coisas, mas num primeiro momento passasse por ser verdade.

PROPRIETÁRIO (calmo, explicando) – meu senhor, em primeiro lugar aquelas mentiras de Brasília custam o olho da cara e pode ter certeza de que todos nós pagamos um pouco. Em segundo lugar, o senhor deve pensar que talvez seus filhos estejam um pouco acima da média, aí não engana mesmo.

INTRUSO (querendo acreditar em filhos gênios) – o senhor acha?

PROPRIETÁRIO (aproveitando a deixa) – claro. Isso de Magia é tudo mentira, mas é para o pessoal mais fraquinho, entende? Sem querer julgar ninguém, está na cara que não, há lugar para todos.

INTRUSO (pensativo) – é, pode ser, principalmente a menina, ela não se dobra fácil e quando eles começam a cochichar ...

PROPRIETÁRIO (empurrando) – e o senhor notou se cochicharam?

INTRUSO (colocando a corda no próprio pescoço) – notei, sim.

PROPRIETÁRIO (dando o laço) – então está explicado. Crianças espertas são difíceis de enganar. E quando as pessoas começam a conversar fica difícil acreditar nas mentiras ...

INTRUSO (já pacificado, todo satisfeito de o outro ter reconhecido a genialidade dos filhos) – com certeza, foi isso mesmo.

Serra, sexta-feira, 05 de fevereiro de 2016.

GAVA.

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