Bruxaria
O cara entrou fuzilando na loja.
Era uma Bruxaria, como existem pastelarias
que vendem pasteis, revistarias que vendem revistas, tabacarias que vendem
tabaco e assim por diante, essa vendia bruxas, bruxos, feiticeiros,
feiticeiras, magos e magas, mandingueiros e mandingueiras, essas coisas.
O proprietário estava a postos.
O intruso estava furioso.
INTRUSO (apoiando-se no balcão com vidros que
mostravam os objetos) – comprei umas porcarias aqui ...
PROPRIETÁRIO (apontando os vidros em perigo de
rachar) – cuidado.
INTRUSO (levantando os cotovelos, incomodado
por ter sido chamado à atenção) – que que é?
PROPRIETÁRIO (cuidadoso, com as mãos na
cintura, desafiante) – o senhor vai quebrar o vidro.
INTRUSO – e daí, se eu quebrar? Não estou de
bom humor.
PROPRIETÁRIO (botando o galho dentro) – o que
se passa? Posso ajudar?
INTRUSO – não sei. Comprei aqui uma Bruxa,
não funcionou, uma porcaria.
PROPRIETÁRIO – ah, meu senhor, aqui é loja de
periferia, cidade do interior, o estado da coisa, o senhor sabe, Brasil, o que
o senhor poderia esperar?
INTRUSO – moro aqui, eu sei: três S, SSS,
cidade suja, povo selvagem, serviço ruim, mas assim também, não, né, pelo meu
dinheiro sempre muito bom quero coisa que funcione. Não funcionou.
PROPRIETÁRIO – é magia, meu senhor, é
mentira, é para divertir, se quiser coisa séria tem de pegar outra coisa, é
para passar o tempo, tem de fingir que acredita.
INTRUSO – quando comprei disseram que iria
funcionar.
PROPRIETÁRIO – claro, a mentira.
INTRUSO – mas, se nem isso! Quebrou, estou
dizendo!
PROPRIETÁRIO – nos estrangeiros é melhor que
aqui, lá as mentiras funcionam, aqui nem sempre, o senhor tem de dar um
desconto. Nos EUA, na Europa, principalmente na Grã-Bretanha e na França, a
mentirada corre solta e ninguém reclama.
INTRUSO – mas não estou lá, estou aqui.
PROPRIETÁRIO (falando baixinho, quase
inaudível, para trás: “podia
ir”) –
vamos tentar resolver. O que está pegando?
INTRUSO – era festa de aniversário dos
gêmeos, eu queria uma coisa que enganasse como aquelas de Brasília, para depois
eu dizer, é tudo mentira, vocês não devem acreditar nessas coisas, mas num
primeiro momento passasse por ser verdade.
PROPRIETÁRIO (calmo, explicando) – meu
senhor, em primeiro lugar aquelas mentiras de Brasília custam o olho da cara e
pode ter certeza de que todos nós pagamos um pouco. Em segundo lugar, o senhor
deve pensar que talvez seus filhos estejam um pouco acima da média, aí não
engana mesmo.
INTRUSO (querendo acreditar em filhos gênios)
– o senhor acha?
PROPRIETÁRIO (aproveitando a deixa) – claro.
Isso de Magia é tudo mentira, mas é para o pessoal mais fraquinho, entende? Sem
querer julgar ninguém, está na cara que não, há lugar para todos.
INTRUSO (pensativo) – é, pode ser,
principalmente a menina, ela não se dobra fácil e quando eles começam a
cochichar ...
PROPRIETÁRIO (empurrando) – e o senhor notou
se cochicharam?
INTRUSO (colocando a corda no próprio
pescoço) – notei, sim.
PROPRIETÁRIO (dando o laço) – então está
explicado. Crianças espertas são difíceis de enganar. E quando as pessoas
começam a conversar fica difícil acreditar nas mentiras ...
INTRUSO (já pacificado, todo satisfeito de o
outro ter reconhecido a genialidade dos filhos) – com certeza, foi isso mesmo.
Serra, sexta-feira, 05 de fevereiro de 2016.
GAVA.
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